Bélgica propõe cobrar previdência de traficantes de drogas
4 min readBélgica mira traficantes e propõe contribuição compulsória para a previdência.
Proposta inovadora quer atingir criminosos no bolso.
O governo da Bélgica lançou uma proposta inédita na semana passada, sob liderança da ministra das Pequenas e Médias Empresas e do Emprego, Éléonore Simonet, para obrigar que traficantes de drogas condenados passem a contribuir para o sistema previdenciário do país como se fossem trabalhadores autônomos. A medida, apresentada na última segunda-feira (30/6), em Bruxelas, tem como principal objetivo enfraquecer financeiramente os envolvidos no tráfico, forçando-os a arcar com encargos fiscais e sociais que normalmente são cobrados apenas de atividades lícitas. Segundo Simonet, a iniciativa pretende atingir criminosos “onde mais lhes dói: a carteira”, ao mesmo tempo em que visa combater o acesso indevido a benefícios sociais por quem nunca contribuiu para o sistema. O projeto integra um grande plano para pequenas e médias empresas e, caso aprovado, permitirá ao órgão de previdência local, o INASTI, exigir o pagamento retroativo de contribuições previdenciárias de pessoas condenadas por envolvimento com tráfico de drogas, além de bloquear benefícios assistenciais como seguro-desemprego, bolsas de estudo e auxílio-moradia para réus inadimplentes.
A proposta surge em meio à crescente preocupação das autoridades belgas com a presença e o impacto do crime organizado no país, especialmente com a movimentação bilionária do tráfico de drogas através dos portos belgas, como o de Antuérpia. De acordo com a ministra, o objetivo não é legitimar a atividade criminosa, mas sim impor sanções econômicas concretas após a condenação judicial. O plano prevê que traficantes que forem considerados “trabalhadores independentes” sejam automaticamente registrados no INASTI, passando a serem cobrados com a alíquota padrão de 20,5% sobre os lucros obtidos nos cinco anos anteriores ao processo judicial. O valor mínimo de contribuição anual para autônomos na Bélgica atualmente é fixado em cerca de 3.486 euros, mas pode aumentar consideravelmente dependendo do volume de rendimentos ilegais apurados. O governo também planeja recuperar valores de benefícios pagos indevidamente nesses casos, podendo exigir a devolução de até 4.500 euros por trimestre de seguro-desemprego recebido por traficantes condenados durante o exercício da atividade ilícita.
Especialistas e representantes do judiciário belga consideram a medida uma abordagem diferenciada no combate ao crime, focando em penalidades financeiras além das tradicionais sanções penais. O projeto, porém, enfrenta desafios práticos e jurídicos relevantes, como a necessidade de aprimorar o compartilhamento de dados entre a polícia, o judiciário e os órgãos fiscais para viabilizar a identificação eficaz dos criminosos e o cálculo das contribuições devidas. Segundo membros do gabinete da ministra Simonet, será fundamental garantir o fluxo rápido e seguro dessas informações para que o INASTI possa atuar prontamente após as sentenças condenatórias. Organizações da sociedade civil também avaliam que a proposta pode reduzir a impunidade, dificultar o acúmulo de patrimônio por criminosos e desestimular a permanência no tráfico. No entanto, há dúvidas quanto à capacidade de recuperação dos valores diante da informalidade e do uso frequente de laranjas e testas de ferro por parte das quadrilhas, o que pode dificultar o rastreio de bens e receitas ilegais.
Consequências e expectativas para o combate ao crime organizado
A proposta da ministra belga marca um novo capítulo nas ações de enfrentamento ao tráfico de drogas, ao sugerir que a repressão ao crime também passa por mecanismos de asfixia financeira e não apenas pela punição judicial tradicional. Caso a medida avance, a expectativa do governo é não só diminuir as margens de lucro dos traficantes, mas também forçá-los a ressarcir o sistema de proteção social, criando novas barreiras ao uso de benefícios por parte de condenados. A iniciativa também tem potencial para inspirar outros países europeus, ao demonstrar formas alternativas de responsabilização econômica e social dos envolvidos em atividades ilícitas. Ainda assim, especialistas alertam para a necessidade de um amplo debate legal e operacional, a fim de que a nova política não encontre brechas processuais ou tecnológicas que permitam sua evasão. A ministra Simonet ressalta que o projeto é parte de uma estratégia mais ampla de responsabilização e modernização das ferramentas contra o crime, apostando na integração entre órgãos públicos e avanços em inteligência fiscal e judiciária. O desenrolar da proposta será acompanhado de perto por entidades de direitos humanos, setores do judiciário e pela própria sociedade belga, que deseja respostas mais eficazes ao desafio do tráfico e do crime organizado.
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