O Urso Acuado: Por Que a Rússia Deve Expandir ou Perecer nas Estepes da Ucrânia e da Europa
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Antes de mergulharmos no coração deste texto, quero ser cristalino sobre minha posição no conflito entre Rússia e Ucrânia:
Não sou neutro, nem imparcial. Estou firmemente ao lado da Ucrânia, o povo oprimido, o invadido, que luta pela soberania e pela liberdade contra uma agressão injustificável. Essa é a perspectiva que guia minha visão de mundo, alinhada aos valores ocidentais de democracia e direitos humanos.
Dito isso, o que você vai ler a seguir foge do padrão das análises comuns. Na maioria delas, focamos, e com razão, na ótica da vítima: a resiliência ucraniana, as atrocidades sofridas, o heroísmo em meio ao caos. É natural e correto vermos o mundo pelos nossos olhos, pelos olhos do Ocidente. Mas aqui, o objetivo é outro: desvendar as motivações do adversário, o que impulsiona os russos a agirem como agem.
Muitos resumem isso a “Putin é um ditador cruel”, e sim, ele é exatamente isso. Mas se pararmos aí, perdemos a chance de uma compreensão mais profunda, de prever o que vem pela frente e de fortalecer nossa própria estratégia.
Este texto mergulha na alma russa, sua geografia impiedosa, sua história de invasões, seus medos ancestrais, sem justificar, contemporizar ou defender as ações de Moscou. O objetivo não é apologia e sim obter inteligência estratégica. É como estudar o mapa do inimigo para navegar melhor pelo campo de batalha. O conteúdo é denso, cheio de camadas históricas e geopolíticas, mas garanto: ao final, você sairá com uma visão mais afiada não só do nosso lado, mas do lado oposto.
Boa leitura
Ah, como é fascinante e ao mesmo tempo aterrorizante mergulhar nas profundezas da alma russa. Eu, que vivi anos fascinado pelas sombras do Kremlin e as vastas estepes siberianas (sou vidrado em ver vídeos sobre Yakutsk), vendo entrevistas com generais aposentados e historiadores esquecidos, sempre me pergunto: será que o Ocidente realmente entende o que move essa nação? Não é ideologia, nem ambição pessoal de um líder como Putin; é algo mais primal, gravado no DNA geográfico e histórico da Rússia. Como um urso (não polar) acuado em sua toca, ela se expande para não ser devorada, ou se retrai, correndo o risco de extinção. Hoje, enquanto o mundo condena a guerra na Ucrânia como um capricho autoritário, eu vejo, do prisma russo, uma repetição inexorável de um padrão milenar. E esse padrão não termina em Kiev: a confrontação com a Europa é o horizonte inevitável, pois a Rússia sempre oscila entre expansão e contração. Sem o primeiro, o segundo a condena ao esquecimento. Deixe-me contar essa história como um velho contador de lendas, com o fogo crepitando ao fundo, desfiando os fios da geografia, da demografia e da economia global que tecem o destino do urso russo.
Imagine as planícies russas como um vasto oceano de grama e neve, sem portos seguros ou ilhas para ancorar. Desde os tempos imemoriais, essa terra foi um território de passagem, um convite aberto para hordas invasoras. Os bárbaros hunos, no século IV, galopavam pelas estepes como fantasmas do vento, deixando trilhas de destruição. Depois vieram os mongóis, em 1237, que varreram territórios russos com sua Horda Dourada por dois séculos inteiros. Era uma lição brutal: sem barreiras naturais sem os Pireneus ou os Apeninos que protegem a França e a Itália, a Rússia é um corredor amplo, uma autoestrada para conquistas. Os poloneses invadiram no Tempo das Perturbações, no início do século XVII; os suecos, sob Carlos XII, quase chegaram a Moscou em 1708; Napoleão, com sua Grande Armée, marchou até as portas da capital em 1812, só para ser engolido pelo inverno e pela vastidão. E Hitler, em 1941, com a Operação Barbarossa, repetiu o erro fatal, avançando pelas mesmas planícies planas que facilitam tanques e infantaria.
Essa geografia impiedosa, a Grande Planície Europeia, que se estreita no Oeste e se abre como um funil rumo ao coração russo EXIGE buffers, zonas de amortecimento. Sem montanhas como o Cáucaso para todos os lados, ou rios como o Danúbio para frear exércitos, a Rússia aprendeu que a melhor e única defesa é o ataque. Expanda ou pereça. Esse mantra ecoa desde os czares. Ivan, o Grande, no final do século XV, libertou Moscóvia do jugo mongol e empurrou as fronteiras para o norte, rumo aos Urais e ao Ártico, criando “profundidade estratégica”, espaço para recuar, reorganizar e contra-atacar. Era o nascimento de uma doutrina: transforme vulnerabilidade em vastidão. Ivan, o Terrível, no século XVI, conquistou o Canato de Kazan e Astrahan, estendendo-se para o sul, em busca de uma “muralha natural” no Cáucaso, bloqueando os persas e otomanos. Não era tirania gratuita; era a construção de camadas protetoras contra o vazio exposto das estepes.
Pedro, o Grande, e Catarina, a Grande, no século XVIII, elevaram isso a arte. Pedro abriu janelas para o Báltico, derrotando os suecos na Grande Guerra do Norte, transformando mares em âncoras defensivas. Catarina anexou a Crimeia e partes da Ucrânia, garantindo o Mar Negro como buffer contra o sul muçulmano. Os czares entendiam: buffers não são luxo, são oxigênio. Na prática, todos aqueles que consideramos como grandes czares, tiveram como maior mérito a expansão do buffer russo. Os soviéticos, herdeiros diretos, ampliaram isso. Após 1945, Stalin impôs o Pacto de Varsóvia, uma cortina de ferro de estados-satélites da Polônia à Bulgária, recriando os anchors perdidos, os Cárpatos como barreira ocidental. Não era comunismo puro; era geografia vestida de ideologia. Quando a URSS colapsou em 1991, perderam tudo: buffers evaporaram, fronteiras recuaram, e o núcleo russo ficou nu novamente, exposto ao “funil” europeu. Ou seja, nunca existiu uma Russia estável, ou ela se expande ou ela paga o preço com a perda de território
Putin? Ele é o czar moderno, repetindo o libreto ancestral com toques contemporâneos. A Ucrânia não é uma obsessão pessoal; é o “portal” das estepes, o caminho histórico para Moscou. Permitir sua “otanização”, com bases da Aliança Atlântica em Kharkiv ou Odessa, seria convidar a próxima Barbarossa, não com tanques, mas com mísseis e influência econômica. A expansão da OTAN, incorporando Bálticos, Polônia e agora Finlândia e Suécia, dobrou a fronteira russa com a OTAN, transformando o Báltico em um “lago da OTAN”. A frota russa em Kaliningrado está encurralada, e o Suwalki Gap, esse estreito de 100 km entre Polônia e Lituânia, grita por um “corredor terrestre” para conectar Belarus ao exclave russo. Do Kremlin, isso é defesa: reestabelecer buffers para não desaparecer.
Mas o relógio demográfico tiquetaqueia como uma bomba. A taxa de fertilidade é um abismo: 1,4 filhos por mulher,muito longe dos 2,1 necessários para reposição. E pior: os russos “verdadeiros”, os eslavos étnicos, que formam o cerne da identidade nacional, da cultura ortodoxa aos laços linguísticos têm taxas ainda menores, beirando 1,3 em regiões centrais como Moscou e São Petersburgo. Imigrantes de minorias não-eslavas, como tártaros ou chechenos, inflacionam a média, mas no Kremlin, “russo” significa eslavo. Essa distinção não é racismo; é realismo: a coesão nacional depende dessa base demográfica. Sem jovens eslavos, quem guarnece as fronteiras? A estratégia russa secular “quantidade como qualidade”, jogando corpos em massa para resolver batalhas, como em Borodino ou Kursk só funciona com população crescente. Stalingrado venceu pela attrition humana; hoje, com envelhecimento acelerado, essa tática vira suicídio. O único problema é que os russos provaram novamente que não conhecem outra tática, o que vemos no atual conflito com a Ucrania é o mesmo padrão de comportamento militar da época dos Czares e dos soviéticos. Considerando que já foram perdidos 1 milhao de jovens no atual conflito e que outro milhão de jovens fugiram da Russia, paradoxalmente isto torna ainda mais premente o conflito com a Europa. Esperar significa agravar ainda mais a questão demográfica. Agora é uma das últimas janelas: expandir para Ucrânia incorpora milhões de eslavos ucranianos, culturalmente próximos, rejuvenescendo a demografia russa. Espere mais, e a Russia será uma nação de pensionistas, incapaz de sustentar um exército.
No Oriente, o drama se aprofunda. A Sibéria e o Extremo Oriente são tesouros vazios: vastos, ricos em petróleo, gás e minerais, mas com densidade populacional ridícula – menos de 5 pessoas por km² em áreas como o Krai de Khabarovsk. Com fertilidade baixa, controlar isso vira quimera. A China, com sua população ainda massiva (apesar do declínio), olha cobiçosamente para o leste russo: disputas históricas sobre o Rio Amur, infiltração econômica via “Nova Rota da Seda”. Já vemos assentamentos chineses informais, fazendas e comércio que erodem nossa soberania. Sem expansão ocidental para equilibrar, o urso russo esvaziado pode ser mordido não só pelos chineses, mas pelas populações muçulmanas em expansão da Ásia Central. Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, todas ex-repúblicas soviéticas com fertilidade acima de 2,5, impulsionadas por demografia islâmica pressionam as fronteiras sul. Radicalismo islâmico, migração em massa: sem buffers fortes, o território atual encolhe. Imagine: uma Rússia reduzida ao núcleo europeu, perdendo Sibéria para Pequim e Ásia Central para califados emergentes. Não é ficção; é a lógica da demografia e geografia.
E economicamente? Ah, aqui o futuro assombra como um fantasma. Projeções indicam que, em 20 a 30 anos, EUA, China e Índia controlarão 3/4 do PIB mundial. Os EUA com inovação tecnológica; China com manufatura e “Belt and Road”; Índia com demografia jovem e serviços. A Rússia, sem expansão, fica obsoleta: o PIB atual é menor que o da Itália, dependente exclusivamente de commodities cada vez mais desvalorizadas como óleo e gás (o ostracismo econômico será o destino de todos os países que dependem exclusivamente de hidrocarbonetos e que não foram bem sucedidos na diversificação econômica). Sem novos territórios, com recursos ucranianos como trigo, minérios e portos, os russos se tornam irrelevantes, uma relíquia do século XX. Lembrados apenas pelo arsenal nuclear, que devora orçamentos: manter milhares de ogivas, submarinos e mísseis custa bilhões anuais, um fardo insustentável para uma economia encolhendo. Sem expansão, não só há estagnação; há encolhimento territorial e economicamente, vira um anão ao lado de gigantes. O “Eixo das Ditaduras”, Russia, China, Irã e Coreia do Norte pode fornecer um fôlego de curto prazo, trocando drones iranianos por tecnologia russa, munições norte-coreanas por energia, mas é paliativo. Sem buffers demográficos e territoriais, o urso vira pele de tapete.
A guerra híbrida com a Europa já pulsa. Incursões aéreas, 19 drones sobre Polônia em 2025, MIGs sobre Estônia são sondagens, “salami-slicing” para fatiar a OTAN. Sabotagens cibernéticas paralisam aeroportos em Londres e Berlim; a “frota sombra” lança drones de navios civis perto de Oslo. É teste: o Artigo 5 vale para Bálticos tanto quanto para Alemanha? A economia de guerra, priorizando drones baratos contra mísseis caros, exaure o Ocidente. Europa se rearma com “Parede de Drones” e “Escudo Espacial”, mas enfrenta paradoxo: poderes médios ricos mas fracos, dependentes dos EUA. Infelizmente, uma boa parte do deep state americano e do complexo militar-industrial tem sido implacável no sentido de ir contra uma resolução do conflito. Esses interesses entranhados, burocratas sombras no Pentágono, lobistas de armas em Washington veem na prolongação da guerra uma fonte inesgotável de contratos bilionários, ignorando o custo humano. Tudo indica que estamos nos aproximando de um conflito cada vez mais amplo, afinal para 2027 se espera uma expansão de 50% no orçamento militar americano, saltando para US$ 1,5 trilhão sob propostas de Trump, para construir um “exército dos sonhos” em tempos “perigosos”. O mundo está ficando mais nervoso, com tensões escalando não só na Europa, mas no Pacífico e Oriente Médio, como se a humanidade estivesse dançando à beira do abismo. Se Ucrânia cair, Bálticos caem; afinal como já dissemos se não houver expansão, os russos perecerão.
No fim, a Rússia é tragédia shakesperiana: vasta, mas frágil; poderosa, mas paranoica. A expansão não é escolha; é destino, rimando com invasões passadas. Sem ela, o urso encolhe, mordido por dragões chineses e leões muçulmanos, esquecido exceto por suas presas nucleares enferrujadas. O mundo pode condenar, mas a geografia não perdoa. E eu, analista, assisto, sabendo que a história, nas estepes, sempre rima com sangue.
Não sou neutro, nem imparcial. Estou firmemente ao lado da Ucrânia, o povo oprimido, o invadido, que luta pela soberania e pela liberdade contra uma agressão injustificável. Essa é a perspectiva que guia minha visão de mundo, alinhada aos valores ocidentais de democracia e direitos humanos.
Dito isso, o que você vai ler a seguir foge do padrão das análises comuns. Na maioria delas, focamos, e com razão, na ótica da vítima: a resiliência ucraniana, as atrocidades sofridas, o heroísmo em meio ao caos. É natural e correto vermos o mundo pelos nossos olhos, pelos olhos do Ocidente. Mas aqui, o objetivo é outro: desvendar as motivações do adversário, o que impulsiona os russos a agirem como agem.
Muitos resumem isso a “Putin é um ditador cruel”, e sim, ele é exatamente isso. Mas se pararmos aí, perdemos a chance de uma compreensão mais profunda, de prever o que vem pela frente e de fortalecer nossa própria estratégia.
Este texto mergulha na alma russa, sua geografia impiedosa, sua história de invasões, seus medos ancestrais, sem justificar, contemporizar ou defender as ações de Moscou. O objetivo não é apologia e sim obter inteligência estratégica. É como estudar o mapa do inimigo para navegar melhor pelo campo de batalha. O conteúdo é denso, cheio de camadas históricas e geopolíticas, mas garanto: ao final, você sairá com uma visão mais afiada não só do nosso lado, mas do lado oposto.
Boa leitura
Ah, como é fascinante e ao mesmo tempo aterrorizante mergulhar nas profundezas da alma russa. Eu, que vivi anos fascinado pelas sombras do Kremlin e as vastas estepes siberianas (sou vidrado em ver vídeos sobre Yakutsk), vendo entrevistas com generais aposentados e historiadores esquecidos, sempre me pergunto: será que o Ocidente realmente entende o que move essa nação? Não é ideologia, nem ambição pessoal de um líder como Putin; é algo mais primal, gravado no DNA geográfico e histórico da Rússia. Como um urso (não polar) acuado em sua toca, ela se expande para não ser devorada, ou se retrai, correndo o risco de extinção. Hoje, enquanto o mundo condena a guerra na Ucrânia como um capricho autoritário, eu vejo, do prisma russo, uma repetição inexorável de um padrão milenar. E esse padrão não termina em Kiev: a confrontação com a Europa é o horizonte inevitável, pois a Rússia sempre oscila entre expansão e contração. Sem o primeiro, o segundo a condena ao esquecimento. Deixe-me contar essa história como um velho contador de lendas, com o fogo crepitando ao fundo, desfiando os fios da geografia, da demografia e da economia global que tecem o destino do urso russo.
Imagine as planícies russas como um vasto oceano de grama e neve, sem portos seguros ou ilhas para ancorar. Desde os tempos imemoriais, essa terra foi um território de passagem, um convite aberto para hordas invasoras. Os bárbaros hunos, no século IV, galopavam pelas estepes como fantasmas do vento, deixando trilhas de destruição. Depois vieram os mongóis, em 1237, que varreram territórios russos com sua Horda Dourada por dois séculos inteiros. Era uma lição brutal: sem barreiras naturais sem os Pireneus ou os Apeninos que protegem a França e a Itália, a Rússia é um corredor amplo, uma autoestrada para conquistas. Os poloneses invadiram no Tempo das Perturbações, no início do século XVII; os suecos, sob Carlos XII, quase chegaram a Moscou em 1708; Napoleão, com sua Grande Armée, marchou até as portas da capital em 1812, só para ser engolido pelo inverno e pela vastidão. E Hitler, em 1941, com a Operação Barbarossa, repetiu o erro fatal, avançando pelas mesmas planícies planas que facilitam tanques e infantaria.
Essa geografia impiedosa, a Grande Planície Europeia, que se estreita no Oeste e se abre como um funil rumo ao coração russo EXIGE buffers, zonas de amortecimento. Sem montanhas como o Cáucaso para todos os lados, ou rios como o Danúbio para frear exércitos, a Rússia aprendeu que a melhor e única defesa é o ataque. Expanda ou pereça. Esse mantra ecoa desde os czares. Ivan, o Grande, no final do século XV, libertou Moscóvia do jugo mongol e empurrou as fronteiras para o norte, rumo aos Urais e ao Ártico, criando “profundidade estratégica”, espaço para recuar, reorganizar e contra-atacar. Era o nascimento de uma doutrina: transforme vulnerabilidade em vastidão. Ivan, o Terrível, no século XVI, conquistou o Canato de Kazan e Astrahan, estendendo-se para o sul, em busca de uma “muralha natural” no Cáucaso, bloqueando os persas e otomanos. Não era tirania gratuita; era a construção de camadas protetoras contra o vazio exposto das estepes.
Pedro, o Grande, e Catarina, a Grande, no século XVIII, elevaram isso a arte. Pedro abriu janelas para o Báltico, derrotando os suecos na Grande Guerra do Norte, transformando mares em âncoras defensivas. Catarina anexou a Crimeia e partes da Ucrânia, garantindo o Mar Negro como buffer contra o sul muçulmano. Os czares entendiam: buffers não são luxo, são oxigênio. Na prática, todos aqueles que consideramos como grandes czares, tiveram como maior mérito a expansão do buffer russo. Os soviéticos, herdeiros diretos, ampliaram isso. Após 1945, Stalin impôs o Pacto de Varsóvia, uma cortina de ferro de estados-satélites da Polônia à Bulgária, recriando os anchors perdidos, os Cárpatos como barreira ocidental. Não era comunismo puro; era geografia vestida de ideologia. Quando a URSS colapsou em 1991, perderam tudo: buffers evaporaram, fronteiras recuaram, e o núcleo russo ficou nu novamente, exposto ao “funil” europeu. Ou seja, nunca existiu uma Russia estável, ou ela se expande ou ela paga o preço com a perda de território
Putin? Ele é o czar moderno, repetindo o libreto ancestral com toques contemporâneos. A Ucrânia não é uma obsessão pessoal; é o “portal” das estepes, o caminho histórico para Moscou. Permitir sua “otanização”, com bases da Aliança Atlântica em Kharkiv ou Odessa, seria convidar a próxima Barbarossa, não com tanques, mas com mísseis e influência econômica. A expansão da OTAN, incorporando Bálticos, Polônia e agora Finlândia e Suécia, dobrou a fronteira russa com a OTAN, transformando o Báltico em um “lago da OTAN”. A frota russa em Kaliningrado está encurralada, e o Suwalki Gap, esse estreito de 100 km entre Polônia e Lituânia, grita por um “corredor terrestre” para conectar Belarus ao exclave russo. Do Kremlin, isso é defesa: reestabelecer buffers para não desaparecer.
Mas o relógio demográfico tiquetaqueia como uma bomba. A taxa de fertilidade é um abismo: 1,4 filhos por mulher,muito longe dos 2,1 necessários para reposição. E pior: os russos “verdadeiros”, os eslavos étnicos, que formam o cerne da identidade nacional, da cultura ortodoxa aos laços linguísticos têm taxas ainda menores, beirando 1,3 em regiões centrais como Moscou e São Petersburgo. Imigrantes de minorias não-eslavas, como tártaros ou chechenos, inflacionam a média, mas no Kremlin, “russo” significa eslavo. Essa distinção não é racismo; é realismo: a coesão nacional depende dessa base demográfica. Sem jovens eslavos, quem guarnece as fronteiras? A estratégia russa secular “quantidade como qualidade”, jogando corpos em massa para resolver batalhas, como em Borodino ou Kursk só funciona com população crescente. Stalingrado venceu pela attrition humana; hoje, com envelhecimento acelerado, essa tática vira suicídio. O único problema é que os russos provaram novamente que não conhecem outra tática, o que vemos no atual conflito com a Ucrania é o mesmo padrão de comportamento militar da época dos Czares e dos soviéticos. Considerando que já foram perdidos 1 milhao de jovens no atual conflito e que outro milhão de jovens fugiram da Russia, paradoxalmente isto torna ainda mais premente o conflito com a Europa. Esperar significa agravar ainda mais a questão demográfica. Agora é uma das últimas janelas: expandir para Ucrânia incorpora milhões de eslavos ucranianos, culturalmente próximos, rejuvenescendo a demografia russa. Espere mais, e a Russia será uma nação de pensionistas, incapaz de sustentar um exército.
No Oriente, o drama se aprofunda. A Sibéria e o Extremo Oriente são tesouros vazios: vastos, ricos em petróleo, gás e minerais, mas com densidade populacional ridícula – menos de 5 pessoas por km² em áreas como o Krai de Khabarovsk. Com fertilidade baixa, controlar isso vira quimera. A China, com sua população ainda massiva (apesar do declínio), olha cobiçosamente para o leste russo: disputas históricas sobre o Rio Amur, infiltração econômica via “Nova Rota da Seda”. Já vemos assentamentos chineses informais, fazendas e comércio que erodem nossa soberania. Sem expansão ocidental para equilibrar, o urso russo esvaziado pode ser mordido não só pelos chineses, mas pelas populações muçulmanas em expansão da Ásia Central. Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, todas ex-repúblicas soviéticas com fertilidade acima de 2,5, impulsionadas por demografia islâmica pressionam as fronteiras sul. Radicalismo islâmico, migração em massa: sem buffers fortes, o território atual encolhe. Imagine: uma Rússia reduzida ao núcleo europeu, perdendo Sibéria para Pequim e Ásia Central para califados emergentes. Não é ficção; é a lógica da demografia e geografia.
E economicamente? Ah, aqui o futuro assombra como um fantasma. Projeções indicam que, em 20 a 30 anos, EUA, China e Índia controlarão 3/4 do PIB mundial. Os EUA com inovação tecnológica; China com manufatura e “Belt and Road”; Índia com demografia jovem e serviços. A Rússia, sem expansão, fica obsoleta: o PIB atual é menor que o da Itália, dependente exclusivamente de commodities cada vez mais desvalorizadas como óleo e gás (o ostracismo econômico será o destino de todos os países que dependem exclusivamente de hidrocarbonetos e que não foram bem sucedidos na diversificação econômica). Sem novos territórios, com recursos ucranianos como trigo, minérios e portos, os russos se tornam irrelevantes, uma relíquia do século XX. Lembrados apenas pelo arsenal nuclear, que devora orçamentos: manter milhares de ogivas, submarinos e mísseis custa bilhões anuais, um fardo insustentável para uma economia encolhendo. Sem expansão, não só há estagnação; há encolhimento territorial e economicamente, vira um anão ao lado de gigantes. O “Eixo das Ditaduras”, Russia, China, Irã e Coreia do Norte pode fornecer um fôlego de curto prazo, trocando drones iranianos por tecnologia russa, munições norte-coreanas por energia, mas é paliativo. Sem buffers demográficos e territoriais, o urso vira pele de tapete.
A guerra híbrida com a Europa já pulsa. Incursões aéreas, 19 drones sobre Polônia em 2025, MIGs sobre Estônia são sondagens, “salami-slicing” para fatiar a OTAN. Sabotagens cibernéticas paralisam aeroportos em Londres e Berlim; a “frota sombra” lança drones de navios civis perto de Oslo. É teste: o Artigo 5 vale para Bálticos tanto quanto para Alemanha? A economia de guerra, priorizando drones baratos contra mísseis caros, exaure o Ocidente. Europa se rearma com “Parede de Drones” e “Escudo Espacial”, mas enfrenta paradoxo: poderes médios ricos mas fracos, dependentes dos EUA. Infelizmente, uma boa parte do deep state americano e do complexo militar-industrial tem sido implacável no sentido de ir contra uma resolução do conflito. Esses interesses entranhados, burocratas sombras no Pentágono, lobistas de armas em Washington veem na prolongação da guerra uma fonte inesgotável de contratos bilionários, ignorando o custo humano. Tudo indica que estamos nos aproximando de um conflito cada vez mais amplo, afinal para 2027 se espera uma expansão de 50% no orçamento militar americano, saltando para US$ 1,5 trilhão sob propostas de Trump, para construir um “exército dos sonhos” em tempos “perigosos”. O mundo está ficando mais nervoso, com tensões escalando não só na Europa, mas no Pacífico e Oriente Médio, como se a humanidade estivesse dançando à beira do abismo. Se Ucrânia cair, Bálticos caem; afinal como já dissemos se não houver expansão, os russos perecerão.
No fim, a Rússia é tragédia shakesperiana: vasta, mas frágil; poderosa, mas paranoica. A expansão não é escolha; é destino, rimando com invasões passadas. Sem ela, o urso encolhe, mordido por dragões chineses e leões muçulmanos, esquecido exceto por suas presas nucleares enferrujadas. O mundo pode condenar, mas a geografia não perdoa. E eu, analista, assisto, sabendo que a história, nas estepes, sempre rima com sangue.
