Cérebros femininos resistem ao envelhecimento mas são mais vulneráveis ao Alzheimer
4 min readUm enigma cerebral: por que o cérebro feminino envelhece melhor, mas é mais vulnerável ao Alzheimer?
Enzima ligada ao cromossomo X explica maior incidência da doença em mulheres.
Um paradoxo intrigante da neurociência tem desafiado pesquisadores ao redor do mundo: por que os cérebros femininos, que demonstram maior resistência ao processo natural de envelhecimento, apresentam maior vulnerabilidade à doença de Alzheimer? Estudos recentes publicados na revista científica Cell revelam que mulheres são afligidas pela doença aproximadamente duas vezes mais que os homens, com uma deposição significativamente maior da proteína tau no tecido cerebral. A resposta para esse enigma pode estar na maior quantidade de uma enzima específica ligada ao cromossomo X, chamada peptidase 11 (USP11), presente nos cérebros femininos em comparação aos masculinos, que possuem pares de cromossomos XY. Essa diferença biológica fundamental estabelece uma base para compreender por que mulheres com pares de cromossomos XX concentram um maior acúmulo da proteína tau defeituosa, principal marcador do surgimento de estados demenciais e da classe de doenças neurodegenerativas conhecidas como taupatias.
A descoberta da relação entre a enzima USP11 e o desenvolvimento do Alzheimer abre novos caminhos para o entendimento dos mecanismos que tornam as mulheres mais suscetíveis a essa condição devastadora. David Kang, coautor do estudo da Case Western Reserve University, explica que esta pesquisa estabelece uma estrutura fundamental para identificar outros fatores ligados ao cromossomo X que podem conferir maior suscetibilidade à taupatia em mulheres. A proteína tau, quando funciona adequadamente, desempenha papel crucial na estabilização dos microtúbulos neuronais, mas quando defeituosa, se acumula de forma anormal formando emaranhados neurofibrilares que caracterizam o Alzheimer. Os pesquisadores alertam, no entanto, que os modelos experimentais com camundongos portadores de taupatia podem não capturar totalmente o dimorfismo sexual observado em humanos, o que indica a necessidade de estudos complementares mais específicos. A boa notícia, segundo os cientistas, é que a USP11 é uma enzima passível de inibição farmacológica, abrindo perspectivas promissoras para o desenvolvimento de medicamentos direcionados especificamente para proteger as mulheres do maior risco de desenvolver a doença de Alzheimer.
Além dos fatores genéticos relacionados ao cromossomo X, pesquisas internacionais com contribuição de cientistas brasileiros apontam para outro mecanismo que pode explicar a maior prevalência de Alzheimer em mulheres. O neurocientista Mychael Lourenço, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderou estudos que demonstraram que a carnitina, uma molécula essencial para o metabolismo de gorduras no corpo humano, está diminuída especificamente em mulheres com perda de memória, mas não em homens. A carnitina desempenha papel fundamental permitindo que o organismo utilize gordura como fonte de energia para as atividades diárias, e no cérebro, tanto a carnitina quanto moléculas semelhantes possuem funções especiais de favorecer as conexões entre os neurônios, tecnicamente chamadas de sinapses. Esses achados de redução da carnitina em mulheres com doença de Alzheimer e demência de forma mais abrangente são particularmente importantes porque ajudam a explicar por que essas mulheres desenvolvem o quadro demencial e por que isso ocorre com maior frequência em comparação aos homens. As observações foram realizadas em mulheres acima de 60 anos, já no período pós-menopausa, sugerindo que este período de transição hormonal e o envelhecimento causam mudanças metabólicas que tornam as mulheres mais vulneráveis ao desenvolvimento de declínio cognitivo.
Fatores sociais e metabólicos amplificam risco de demência na população feminina
A compreensão dos mecanismos bioquímicos e moleculares por trás da maior incidência de Alzheimer em mulheres tem implicações importantes tanto para o diagnóstico quanto para estratégias de prevenção. As medidas de carnitina realizadas no sangue de mulheres e homens demonstraram melhorar a precisão e a acurácia do diagnóstico de Alzheimer, representando um avanço biotecnológico significativo para identificação precoce da doença. Os pesquisadores enfatizam que o estilo de vida de mulheres é frequentemente diferente do estilo de vida de homens na sociedade moderna, com muitas enfrentando jornada dupla de trabalho, além de assumirem papéis de cuidadoras de familiares idosos, o que gera níveis elevados de estresse psicológico. Essas condições produzem mudanças metabólicas que predispõem essas mulheres a desenvolverem perda cognitiva mais adiante na vida. Conhecendo esses mecanismos, torna-se possível desenhar estratégias de prevenção mais eficazes e personalizadas para a população feminina. Os especialistas destacam que hábitos de vida saudáveis, incluindo sono adequado, prática regular de exercícios físicos, alimentação equilibrada, atividades sociais e estímulos cognitivos como jogos mentais, música e aprendizado de novas habilidades, são fundamentais para manter o metabolismo funcionando adequadamente e prevenir quadros demenciais à medida que envelhecemos. A descoberta de que homens não apresentam redução da carnitina mesmo quando desenvolvem prejuízo cognitivo indica que podem existir razões parcialmente diferentes para a perda de memória em mulheres e homens, ressaltando a importância de estudar as diferenças entre os sexos no que diz respeito à incidência e aos mecanismos da doença de Alzheimer. Embora ainda sejam necessárias mais etapas de pesquisa antes de verificar se a carnitina ou seus derivados podem ser utilizados como medicamentos, esses achados apontam para uma direção promissora em que manter o metabolismo funcionando adequadamente pode ser uma estratégia eficaz para melhorar a qualidade de vida das pessoas que já estão sofrendo com demência, oferecendo esperança para milhões de mulheres em risco de desenvolver esta condição neurodegenerativa devastadora.
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