Apoio a Gaza, crítica às tarifas e defesa do multilateralismo pautam discurso de Lula na ONU
8 min readApoio à Palestina e cobrança por multilateralismo marcam discurso de Lula na ONU.
Líder brasileiro fala por justiça em Gaza e critica inação global.
No último discurso de abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, realizado em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom ao denunciar abertamente aquilo que chamou de genocídio em curso na Faixa de Gaza, condenando a resposta militar desproporcional de Israel frente aos ataques do Hamas. O líder brasileiro destacou que dezenas de milhares de mulheres e crianças palestinas já perderam a vida sob os escombros e classificou o cenário como um atentado ao direito humanitário e à ética internacional. Lula afirmou que o que ocorre em Gaza ultrapassa o limite do suportável e representa uma tentativa de aniquilação do sonho de uma nação palestina. O presidente argumentou que, diante da omissão dos que poderiam frear o conflito, cresce a conivência internacional com a tragédia. Ele declarou que nada pode justificar o uso da fome como arma de guerra, nem o deslocamento forçado de populações civis, e que é urgente restituir a soberania da Palestina enquanto Estado. Segundo Lula, assegurar a autodeterminação palestina é condição para restabelecer tanto o multilateralismo quanto o sentido coletivo de humanidade.
Ao abordar o contexto da crise, Lula relembrou a tradição do Brasil de ser o primeiro país a discursar nas sessões da Assembleia Geral da ONU, construindo sua fala sobre a defesa da diplomacia, do direito internacional e da justiça para povos oprimidos. Ele ressaltou que mais de 150 nações já reconhecem o Estado Palestino na Organização das Nações Unidas, mas esse avanço segue barrado pelo Conselho de Segurança, denunciando o bloqueio frequente dos debates internacionais decisivos. O presidente criticou a ausência do líder palestino Mahmoud Abbas no evento, alegando que a decisão dos Estados Unidos ao negar o visto ao chefe da Autoridade Palestina e a outros altos representantes impossibilitou a participação palestina em um fórum fundamental. Lula também utilizou o palco global para anunciar as posições concretas do Brasil: reforço ao controle das importações provenientes de assentamentos ilegais e suspensão das exportações de materiais de defesa à região em conflito. O presidente ainda demonstrou respeito a cidadãos israelenses, dentro e fora do próprio Israel, contrários a punições coletivas contra a população palestina.
O discurso de Lula repercutiu amplamente e desencadeou debates diplomáticos, ampliando a pressão para respostas da comunidade internacional frente ao agravamento da crise humanitária em Gaza. Ele aproveitou o momento para reafirmar o compromisso brasileiro com soluções multilaterais e o fortalecimento de organismos internacionais, atacando o que considera omissão do Conselho de Segurança perante conflitos armados e intervenções unilaterais. O presidente defendeu o multilateralismo como instrumento indispensável para a paz e acusou a desordem global de minar a democracia pelo contínuo enfraquecimento do sistema coletivo de garantias. Lula também citou esforços multilaterais promovidos por países do Sul Global e parcerias internacionais que visam a pavimentar caminhos para acordos e negociações, destacando a necessidade de iniciativas reais para garantir direitos iguais e cidadania plena aos palestinos. A abordagem do presidente refletiu a preocupação do Brasil em preservar a relevância da ONU para a solução de impasses internacionais como o de Gaza.
Ao concluir sua intervenção, Lula alertou para as consequências internacionais do conflito no Oriente Médio e enfatizou a importância de líderes mundiais assumirem responsabilidades objetivas diante da crise. Ele sinalizou que a perpetuação das hostilidades só aprofunda a instabilidade regional e pode expandir o confronto para além dos territórios palestinos, envolvendo países como Líbano, Síria e Irã. O presidente defendeu novamente o reconhecimento imediato do Estado Palestino, reiterou o papel essencial do multilateralismo e encerrou sua fala fazendo um apelo aos países que, em suas mãos, detêm instrumentos para deter a escalada da violência. Com esse posicionamento, Lula projetou o Brasil como um agente a favor da justiça, promovendo a reconstrução da confiança entre as nações e trabalhando por uma ordem internacional fundada na paz, igualdade e no respeito aos direitos humanos, especialmente diante das adversidades enfrentadas pelo povo palestino.
Brasil reforça defesa por solução negociada e protagonismo internacional
A fala de Lula diante dos líderes mundiais evidencia o alinhamento do Brasil à defesa do multilateralismo e à busca por soluções pacíficas no cenário internacional. As referências diretas à tragédia de Gaza e ao sofrimento da população palestina intensificam o debate sobre a responsabilidade dos Estados e das instituições globais na prevenção de catástrofes humanitárias. O presidente também destacou o compromisso brasileiro em promover agendas que favoreçam o diálogo e a cooperação entre as diferentes nações, colocando o país como interlocutor relevante em discussões de alcance global. Lula reiterou a necessidade urgente de reformas nos fóruns internacionais, cobrando transparência, equidade e democratização dos processos decisórios dentro da ONU. Segundo o chefe do Executivo brasileiro, a manutenção de acordos multilaterais e a garantia dos direitos fundamentais são pilares essenciais para um futuro de estabilidade e justiça na ordem mundial.
Sanções de Trump ofuscam estreia de Lula em NY e intensificam resposta em discurso na ONU
Uma nova leva de punições do governo Donald Trump contra autoridades brasileiras ofuscou o primeiro dia de compromissos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Nova York e reforçou a decisão de que ele respondesse no dia 23 de setembro, durante o discurso de abertura na Assembleia-Geral da ONU. Lula defendeu enfaticamente o que o governo brasileiro considerava agressões do governo americano e uma tentativa de interferência contra a soberania brasileira e as instituições democráticas, conforme noticiado pelo Estadão.
O teor final do discurso de Lula foi revisado e ajustado ao longo da segunda-feira, como era costume na véspera do pronunciamento mais importante da política externa brasileira, perante líderes globais.
Lula cumpriu agendas públicas em Nova York, como uma conferência em apoio à criação do Estado palestino, concedeu uma entrevista ao canal americano PBS e reuniu-se com o CEO do TikTok, Shou Zi Chew, na residência diplomática do Brasil em Manhattan. No discurso, Lula antagonizou Trump, devido ao choque aberto entre as pautas dos dois governos. O petista defendeu a Organização Mundial do Comércio (OMC), bloqueada pelo republicano, e cobrou maior ação dos países ricos e financiamento climático no âmbito do Acordo de Paris, abandonado novamente pelos EUA, dois meses antes da COP-30, realizada em Belém (PA).
Na sua 10ª participação em Assembleias da ONU, Lula apresentou uma pauta crítica sobre a condução da organização, apontando “paralisia” e “inação” do Conselho de Segurança, devido ao poder de veto dos membros permanentes, e a falta de representatividade para a nova ordem multipolar. O debate marcou os 80 anos da ONU. Lula citou exemplos da crise do multilateralismo, criticou violações de soberania com ataques aéreos nas guerras do Oriente Médio e abordou, em tom de apoio, as discussões de paz na Ucrânia, travadas pela campanha militar russa.
Lula atendeu a um pedido de encontro reservado com Volodymyr Zelensky, com quem não havia conversado nos últimos meses, embora tivesse falado três vezes com Vladimir Putin desde agosto.
As atividades de Lula na ONU foram ofuscadas pela crise diplomática com os EUA, considerada por especialistas a mais grave em 200 anos de relações bilaterais. Na segunda-feira, o Departamento de Estado confirmou ao Estadão o corte de vistos ao ministro Jorge Messias, advogado-geral da União, e a autoridades do Judiciário. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfrentou restrições de locomoção nos EUA e desistiu de viajar.
O Itamaraty protestou em carta ao secretário-geral António Guterres. Além disso, o Tesouro dos EUA aplicou sanções financeiras ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, à sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e ao Instituto Lex, pertencente à família.
Conversa com Trump
Em entrevista à PBS, Lula classificou o comportamento de Trump como “inacreditável” e criticou o tarifaço de 50% como “absurdo”, sem justificativa plausível. Ele afirmou nunca ter conversado com Trump, por considerar que o ex-presidente americano errou ao apoiar Jair Bolsonaro. Apesar disso, Lula indicou disposição para dialogar. “Se o presidente Trump quiser conversar sobre política, também estou disposto”, declarou. Para a Casa Branca e o Planalto, a razão do tarifaço era uma divergência política, e não um desequilíbrio comercial.
Por que o Brasil sempre abriu a Assembleia Geral da ONU
Ano após ano, o Brasil é o primeiro país a discursar na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Essa prática não está estabelecida em nenhuma regra formal da ONU, mas tornou-se uma tradição diplomática consolidada ao longo do tempo.
Segundo o livro O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão, a tradição começou em 1949, em meio à Guerra Fria, como uma solução diplomática para evitar que a abertura ficasse entre os dois grandes polos da época — Estados Unidos e União Soviética. Desde então, a ONU passou a consultar a missão brasileira todos os anos sobre a manutenção da tradição, e o Brasil sempre respondeu positivamente.
Há também um fundamento histórico mais amplo: o Brasil teve um papel relevante nos primeiros anos da ONU. O diplomata Oswaldo Aranha, por exemplo, presidiu a primeira sessão da Assembleia Geral, em 1947, e teve participação importante em debates centrais da época. A diplomacia brasileira, tradicionalmente voltada à mediação e ao diálogo multilateral, ganhou prestígio, o que contribuiu para que essa prática fosse mantida.
Desde 1955, o Brasil tem aberto de forma consistente o Debate Geral da Assembleia, seguido pelos Estados Unidos, país anfitrião da organização. Esse arranjo deu estabilidade ao protocolo da ONU, com a ordem dos demais discursos definida por critérios como nível de autoridade, equilíbrio geográfico e ordem de inscrição. Em algumas raras exceções — como em 1983, 1984 e 2016 — a ordem foi alterada por razões logísticas.
A tradição acabou dando ao Brasil uma visibilidade única no cenário diplomático internacional, reforçando seu papel histórico como uma voz ativa no sistema multilateral e sua busca por protagonismo nos grandes debates globais.
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