Mensagens de criminosos do PCC revelam fraudes em combustíveis e antecipação de fiscalizações
12 min readMegaoperação desmantela quadrilha bilionária de combustíveis ligada ao PCC e Faria Lima.
Força-tarefa combate fraude e lavagem de dinheiro com combustíveis.
Uma megaoperação nacional envolvendo cerca de 1.400 agentes federais foi deflagrada na manhã de quinta-feira (28), visando desarticular um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. A ação, considerada a maior já realizada no país contra o crime organizado, tem como alvos centrais núcleos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e operadores financeiros da região da Faria Lima, importante centro financeiro de São Paulo. Cumprindo mandados judiciais em oito estados, a força-tarefa coordenada pelo Ministério Público de São Paulo e Receita Federal busca desmantelar toda a cadeia criminosa, da importação dos combustíveis até sua distribuição e comercialização, alcance que inclui ocultação patrimonial via fintechs e fundos de investimento. Segundo as autoridades, o esquema movimentou mais de R$ 52 bilhões em quatro anos, enquanto pagava apenas uma fração irrisória desse montante em impostos – cerca de R$ 90 milhões, valor equivalente a apenas 0,17% do total. O grupo utilizava sofisticados mecanismos financeiros, incluindo pelo menos 40 fundos com somatório superior a R$ 30 bilhões, para ocultar recursos de origem ilícita e blindar o patrimônio das lideranças criminosas, movimentando cifras expressivas sob fachada legal.
O contexto dessa megaoperação revela a complexidade e dimensão das fraudes no ramo de combustíveis, mercado que historicamente figura entre os mais visados pelo crime organizado devido ao alto potencial lucrativo e à facilidade de ocultação de delitos fiscais e financeiros. A investigação, batizada de Carbono Oculto, mergulhou em operações que envolviam desde o controle da logística de grandes redes distribuidoras até a inserção de recursos ilícitos em circuitos bancários oficiais, na Faria Lima, através de instrumentos como fintechs e fundos de investimento. O objetivo principal do esquema consistia não só em lavar e multiplicar capitais provenientes do tráfico, mas também em burlar sistematicamente a fiscalização tributária, privando o Estado de receita bilionária com práticas sofisticadas de sonegação. De acordo com a Receita Federal, estima-se que o valor sonegado em impostos ultrapasse R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2024, consolidando o caso como um dos maiores esquemas já identificados no setor no Brasil recente.
Os desdobramentos da operação já provocam impacto considerável no setor financeiro e de combustíveis, com o bloqueio preventivo de contas, afastamento de gestores suspeitos e interrupção imediata do funcionamento de centenas de estabelecimentos comerciais ligados ao núcleo criminoso. A amplitude da investigação levou à mobilização coordenada de várias esferas do poder público, incluindo órgãos de controle fiscal e forças de segurança estaduais e federais, ao passo que operadores do mercado financeiro passaram a ser alvo de auditorias e procedimentos administrativos rígidos. Especialistas em direito penal e econômico acompanham de perto os efeitos colaterais da operação, apontando que o caso pode estabelecer novos paradigmas de cooperação institucional contra crimes fiscais e lavagem de dinheiro. Outro ponto de atenção reside na capacidade de recomposição dos esquemas ilícitos, dado o grau de infiltração das organizações criminosas em setores estratégicos da economia, como distribuição, varejo e intermediação financeira, apontando para a necessidade de permanente atualização dos métodos de fiscalização e investigação.
O futuro do combate ao crime organizado financeiro, especialmente no setor de combustíveis, passa a ser pautado pelos avanços e aprendizados dessa megaoperação, que deve reverberar em novas regulamentações e endurecimento das práticas de compliance no segmento. O desmantelamento do esquema revela que a integração entre órgãos e o uso intensivo de tecnologia são essenciais para enfraquecer redes criminosas cada vez mais sofisticadas e internacionalizadas. Nos próximos meses, espera-se o aprofundamento das investigações com a possível identificação de novos agentes e ramificações do crime além das fronteiras estaduais, podendo inspirar operações semelhantes em outros setores vulneráveis à lavagem de dinheiro. Para autoridades envolvidas, a operação representa um marco no enfrentamento aos crimes financeiros e reforça o compromisso institucional com a proteção do mercado nacional e a repressão qualificada ao crime organizado, sobretudo frente aos desafios impostos pela convergência entre estruturas tradicionais e instrumentos financeiros modernos.
Investigação aprofunda combate à lavagem e sonegação no setor
O desdobramento desta megaoperação ainda trará reflexos expressivos para o mercado de combustíveis e para o sistema financeiro do país. O sucesso em romper a blindagem jurídica e societária dos investigados demonstra tanto o elevado grau de organização dos esquemas criminais quanto a crescente eficiência das ações integradas de controle. Conforme o avanço das apurações, as autoridades estimam que novas fraudes possam ser reveladas, ampliando o número de envolvidos e a lista de ativos recuperados pelo Estado. Além disso, espera-se que o rigor na aplicação de sanções administrativas e penais, aliado ao aumento da transparência no setor, provoque mudanças estruturais nos mecanismos de controle e nos procedimentos de compliance empresarial. Sob a ótica do interesse público, o caso reforça a urgência do fortalecimento de políticas de combate à sonegação fiscal e de prevenção da lavagem de dinheiro, em linha com as melhores práticas internacionais, contribuindo para frear o avanço do crime organizado e fortalecer a segurança institucional do mercado brasileiro.
Megaoperação contra esquema de fraude em postos de combustível ligados ao PCC e à Faria Lima cumpre mais de 350 mandados em oito estados
Deflagrada em 28 de agosto, a Operação Carbono Oculta revelou um esquema de fraudes em postos de combustível e fintechs, com núcleos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação, que cumpriu mais de 350 mandados em oito estados, expôs práticas que podem comprometer a qualidade do combustível vendido, levando consumidores a questionarem a confiabilidade dos postos. A adulteração, que inclui a mistura de combustíveis com água ou outras substâncias, pode causar sérios danos aos veículos. Sinais como barulhos estranhos, cheiro de queimado e luzes incomuns no painel indicam possível adulteração.
A investigação apontou que a fraude começava com a importação irregular de metanol pelo Porto de Paranaguá (PR). O produto, que deveria ser destinado a empresas de química e biodiesel, era desviado para postos de combustíveis, onde era misturado à gasolina e vendido ao consumidor. Segundo as autoridades, as fraudes eram tanto quantitativas – entregando menos combustível do que o pago – quanto qualitativas, com o metanol fora das especificações da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A Receita Federal estima que cerca de 1.000 postos ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
Como identificar combustível adulterado no seu veículo
- Perda de potência: Falhas no motor, como “tosse” ou sensação de que ele pode apagar, logo após o abastecimento, podem indicar adulteração. Impurezas nos solventes químicos danificam filtros, velas e bombas de injeção.
- Dificuldade na partida: Se o veículo não liga no dia seguinte ao abastecimento, a bomba de ignição pode estar obstruída por combustível adulterado.
- Ruídos e odores anormais: Sons semelhantes a trocas de marcha de bicicleta ou cheiros de querosene e solvente no escapamento são alertas claros.
- Luz de injeção no painel: Uma luz amarela em forma de motor acesa após o abastecimento pode indicar problemas na injeção, que regula a mistura de combustível e ar.
- Aumento de consumo: Se o veículo consome mais combustível do que o normal em trajetos habituais, é um sinal de alerta.
Dicas para evitar problemas
- Prefira postos de confiança, especialmente os de bandeiras conhecidas (marca da distribuidora).
- Exija a nota fiscal para garantir seus direitos em caso de problemas.
- Desconfie de preços muito abaixo da média para gasolina, etanol ou diesel, pois podem indicar adulteração.
A operação destaca a importância de os consumidores ficarem atentos a sinais de irregularidades e escolherem estabelecimentos confiáveis para evitar danos aos veículos e prejuízos financeiros.
Fraudes no setor de combustíveis
Importadoras, agindo como laranjas, adquiriam no exterior nafta, hidrocarbonetos e diesel com recursos de formuladoras e distribuidoras ligadas a uma organização criminosa. Entre 2020 e 2024, essas importações ultrapassaram R$ 10 bilhões. As formuladoras, distribuidoras e postos de combustíveis vinculados ao esquema sonegavam tributos de forma recorrente, resultando em autuações da Receita Federal que totalizam mais de R$ 8,67 bilhões. Além disso, a fraude incluía a adulteração de combustíveis, com desvio de metanol, importado supostamente para outros fins, para a produção de gasolina fora das especificações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), prejudicando consumidores.
Lavagem de dinheiro
Os estabelecimentos envolvidos, incluindo formuladoras, distribuidoras, postos de combustíveis, lojas de conveniência e padarias, eram usados para lavar dinheiro. Auditores da Receita Federal identificaram irregularidades em mais de 1.000 postos em 10 estados (São Paulo, Bahia, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins). Esses postos movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com recolhimento de tributos incompatível com suas operações, sendo autuados em mais de R$ 891 milhões. Cerca de 140 postos, sem movimentação no período, receberam mais de R$ 2 bilhões em notas fiscais de combustíveis, possivelmente para ocultar transações ilícitas.
Ocultação financeira
A lavagem de dinheiro era facilitada por fintechs que atuavam como “bancos paralelos” da organização criminosa, movimentando R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024. Uma dessas fintechs recebia valores em espécie, com mais de 10,9 mil depósitos totalizando R$ 61 milhões entre 2022 e 2023, prática incomum para instituições que operam apenas com dinheiro escritural. Essas fintechs exploravam brechas regulatórias, como a “conta-bolsão”, que mistura recursos de clientes sem segregação, dificultando o rastreamento. Essa conta era usada para compensações financeiras entre distribuidoras, postos e fundos de investimento ligados ao esquema, além de pagamentos a colaboradores e despesas pessoais dos operadores.
A ausência de obrigatoriedade de relatar operações via e-Financeira à Receita Federal também contribuía para a opacidade. Embora alterações normativas em 2024 tenham buscado maior transparência, elas foram revogadas em 2025 após desinformação sobre o tema, mantendo a fintech como um núcleo financeiro invisível para a fiscalização.
Blindagem patrimonial
Os recursos ilícitos eram reinvestidos em negócios e propriedades por meio de fundos de investimento, dificultando sua rastreabilidade e conferindo aparência de legalidade. A Receita Federal identificou 40 fundos (multimercado e imobiliários), com patrimônio de R$ 30 bilhões, controlados pela organização. Majoritariamente fundos fechados com um único cotista (outro fundo), criavam camadas de ocultação. Entre os bens adquiridos, estão um terminal portuário, quatro usinas de álcool (mais duas em negociação), 1.600 caminhões de transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis, incluindo sechs fazendas em São Paulo (R$ 31 milhões) e uma residência em Trancoso (BA) por R$ 13 milhões. Há indícios de que as administradoras desses fundos, cientes do esquema, descumpriam obrigações fiscais para ocultar movimentações.
Nome da operação
A Operação Carbono Oculta reflete, metaforicamente, o dinheiro ilícito escondido na cadeia de combustíveis, aludindo ao elemento químico presente na gasolina e no diesel e à ocultação de recursos em fintechs e fundos de investimento.
Investigações revelam conexão entre PCC, fintechs da Faria Lima e esquema de combustíveis em sete etapas
Mensagens obtidas pela Polícia Federal, exibidas pelo Fantástico (TV Globo), mostram como integrantes de uma quadrilha ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) operavam um esquema bilionário de adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro, envolvendo fintechs da Faria Lima. Os criminosos trocavam informações sobre fraudes, se armavam e antecipavam fiscalizações, permitindo pausar atividades em postos para evitar flagrantes. Em uma mensagem, Thiago Augusto de Carvalho Gomes, preso na operação, escreveu: “Já tudo parado, né? Que a gente sabia que ia começar.” Em outra, ele mencionava estar preparado para reagir: “Pistola na cintura e diesel, pai!”. As conversas também detalhavam o uso de químicos, como o metanol (referido como “M”), para aumentar lucros com combustíveis adulterados.
Como funcionava o esquema
O esquema operava em sete etapas:
1. Importação clandestina: No Porto de Paranaguá (PR), a quadrilha importava metanol e nafta, que deveriam ir para a indústria química, mas eram desviados para adulterar gasolina vendida em postos.
2. Compra de usinas: Usinas de etanol endividadas em São Paulo eram adquiridas com altos investimentos. Além de produzir combustível para o PCC, serviam para lavagem de dinheiro, pagando até 43% acima da média pela cana-de-açúcar.
3. Distribuidoras próprias: A Duvale, em Jardinópolis (SP), sem faturamento até 2019, alcançou R$ 2,8 bilhões em 2021, tornando-se o principal destino do etanol das usinas do PCC. Parte dos recursos era transferida para Rafael Renard Gineste, um dos presos.
4. Transporte: A G8Log, ligada a Mohamad Hussein Mourad (“Primo”), usava caminhões para distribuir combustíveis adulterados aos postos.
5. Postos de combustíveis: Cerca de 1.200 postos em várias cidades brasileiras vendiam gasolina com até 50% de metanol e etanol com até 90%, segundo fiscais da ANP.
6. Fintechs: A BK Instituição de Pagamento, em Barueri (SP), movimentou R$ 46 bilhões em cinco anos via “contas-bolsão”, que dificultavam o rastreamento financeiro.
7. Fundos de investimento: Na Faria Lima, administradoras de fundos transformavam o dinheiro ilícito em patrimônio legalizado. A força-tarefa da Receita Federal e PF identificou 42 fundos do PCC, com R$ 30 bilhões, bloqueados pela Justiça.
Mensagens no celular de Rafael Gineste, apreendido pela PF, revelaram trocas com Thiago sobre adulteração: “Não dá para fazer algo nessa gasolina pra render mais? E baixar o custo dela? Etanol, sei que podemos jogar um ‘M’ [metanol].” A operação expôs a sofisticação do esquema, que combinava fraudes, lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial.
PF apura suposta ligação de seis padarias de SP com o PCC
A Polícia Federal (PF) investiga seis padarias na Grande São Paulo por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) na Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de outubro, que apura esquemas de lavagem de dinheiro. Além de postos de combustíveis e lojas de conveniência, o relatório do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da PF aponta uma rede de padarias, algumas com até três CNPJs registrados no mesmo endereço. Entre os estabelecimentos citados estão a padaria Iracema, em Santa Cecília (região central), e a Salamanca, na Vila Campestre (zona sul), ambas reconhecidas em listas das melhores da capital, além de unidades no Brooklin, Santa Teresinha (zona norte), Tatuapé (zona leste) e Osasco.
Estabelecimentos mencionados:
- Nova Iracema – Av. Angélica, 101, Santa Cecília
- Nova Salamanca – Av. José Estevão de Magalhães, 45, Vila Campestre
- Pérola do Brooklyn – R. Barão do Triunfo, 255, Brooklin
- Nova Copacabana – R. Copacabana, 36, Santa Teresinha
- Bella Suil – R. Antônio de Barros, 1.419, Tatuapé
- Bella Portugal – R. Gen. Florêncio, 239, Quitaúna, Osasco
A investigação revela que três padarias estão registradas em nome de Maria Edenize Gomes, residente em Santo Amaro das Brotas (SE), com renda declarada inferior a R$ 1.000. Ela é sócia de 17 empresas, incluindo as padarias Iracema, Nova Copacabana e a rede Dubai, registrada em um endereço residencial em Tremembé (zona norte). Maria Edenize também possui lojas de conveniência em São Paulo, Goiás e Paraná, transferidas por sua vizinha, Ellen Bianca de Franca Santana Resende, cuidadora com salário de R$ 1.461. Ellen Bianca, por sua vez, recebeu empresas de Alexandre Motta de Souza, alvo de busca e apreensão pela PF.
Motta de Souza e sua esposa, Luciane Gonçalves Brene Motta de Souza, são investigados por fraudes, incluindo adulteração de combustíveis. Luciane é ligada a 12 empresas conectadas a Lucas Tomé Assunção, contador de Mohamad Hussein Mourad, apontado como operador central do esquema, que envolve fraudes fiscais, contábeis, estelionato e lavagem de dinheiro. O advogado de Mourad não se manifestou por falta de acesso aos autos.
A padaria Iracema, além de dois CNPJs em nome de Maria Edenize, tem um registro ligado a Tharek Majide Bannout, cunhado de um primo de Mourad. Bannout também é sócio das padarias Nova Salamanca, Nova Copacabana, Bella Suil e Bella Portugal. Entre 2023 e 2024, ele integrou o quadro societário de sete postos de combustíveis em São Paulo, mediados por Renan Cepeda Gonçalves, ex-sócio da Rede Boxter, investigada na Operação Rei do Crime por lavagem de capitais e ligação com o PCC.
As padarias Iracema e Salamanca continuam funcionando. Na Iracema, pagamentos com vale-refeição estavam suspensos na manhã de 1º de novembro. Os sócios dos estabelecimentos não responderam às tentativas de contato, e ligações para as padarias foram desligadas. As autoridades suspeitam que Bannout atue na ocultação de bens e transações do PCC.
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