Indústria teme perdas e não vê alternativa após tarifa dos EUA
6 min readIndústria teme prejuízos e não encontra solução com tarifa dos EUA.
Setores apontam risco e impossibilidade de novo mercado.
Seis setores industriais do Brasil manifestaram ao governo federal a impossibilidade de redirecionar para outros mercados os bens hoje destinados aos Estados Unidos, em meio à preocupação com o impacto da nova tarifa de 50% anunciada pelo governo americano sobre importações brasileiras. O posicionamento foi detalhado em uma reunião ocorrida em Brasília no dia 15 de Julho, com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin e ministros do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Associações como Abimaq, que representa a indústria de máquinas e equipamentos, e Abicalçados, do setor calçadista, frisaram a dependência do mercado americano tanto pela dimensão do volume exportado quanto pela alta especificidade dos pedidos, que torna inviável a realocação para outros destinos no curto e médio prazo. Os representantes industriais foram contundentes sobre a gravidade da situação e alertaram para o efeito direto nas vendas e no emprego caso a medida entre em vigor já em 1º de agosto, como planejado pelo governo dos EUA.
O cenário descrito pelo setor industrial brasileiro destaca que as exportações para os EUA ocupam papel estratégico para segmentos de maior valor agregado, como aeronaves, máquinas, calçados, motores, eletrônicos e matérias-primas industriais. Empresas como Embraer, líder nas exportações de aeronaves, explicaram que até 63% desse segmento depende dos compradores norte-americanos, e que a cadeia é altamente interdependente, já que boa parte dos componentes é adquirida nos próprios Estados Unidos. Para o setor de calçados, por exemplo, cerca de 22% das vendas externas vão exclusivamente para o mercado americano, em pedidos feitos sob medida para clientes dos EUA, dificultando qualquer redirecionamento para outros países. Esse entrave comercial se soma à preocupação com relações firmadas por especificações e acordos técnicos difíceis de replicar em outros mercados, além de fatores logísticos e de competitividade global diante de rivais como Canadá, União Europeia e Ásia.
O agravamento da crise foi confirmado por relatos de cancelamento de pedidos e temor de desemprego já nos primeiros dias após o anúncio da tarifa pelos Estados Unidos. No setor calçadista, por exemplo, a expectativa é de até 12 mil vagas comprometidas diretamente, especialmente na região Nordeste, onde estão concentradas fábricas voltadas à exportação. O segmento de máquinas e equipamentos declarou ainda que metade de suas exportações de alta tecnologia é absorvida pelos americanos, dificultando qualquer ajuste de curto prazo nas estratégias comerciais. Já a exportação de materiais de construção, motores, madeira e eletrônicos também enfrenta barreiras semelhantes, com grau elevado de dependência do mercado estadunidense e pouca margem para transferir estes volumes a destinos alternativos. Em resposta, associações industriais e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) articulam uma mobilização para que o governo brasileiro negocie com os EUA um adiamento de 90 dias para as novas tarifas, buscando uma solução definitiva que evite colapso nos setores afetados.
Indústria brasileira busca diálogo para evitar perdas
Diante da urgência e dos potenciais prejuízos, a indústria nacional aposta na diplomacia comercial como única via possível para mitigar riscos, defendendo negociações rápidas entre Brasil e Estados Unidos antes da entrada em vigor das tarifas. A expectativa é que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforce, junto à Casa Branca, o pedido de adiamento e participe de discussões para construir alternativas que recomponham um cenário favorável ao comércio bilateral. Segundo empresários, uma resposta imediata é necessária não apenas para proteger empregos e preservar a produção nacional, mas também para evitar o enfraquecimento estrutural dos segmentos industriais no país. A preocupação é ainda maior diante da constatação de que o destino dos produtos exportados ao mercado americano, como aviões, máquinas, motores, eletrônicos e calçados, está atrelado a relacionamentos comerciais de longa data e a cadeias globais de valor que não podem ser simplesmente transferidas para outros mercados. Nesse contexto, o setor vê a manutenção do diálogo entre governos como fundamental para assegurar a continuidade das exportações e minimizar danos econômicos, sinalizando um futuro ainda incerto para a indústria brasileira frente às novas barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos.
Haddad: Plano contra tarifaço contempla crédito para empresários
Em entrevista à Itatiaia na quinta-feira (24), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, revelou que o governo federal possui um plano de contingência abrangente para enfrentar a tarifa de 50% anunciada por Donald Trump, incluindo uma linha de crédito para empresários mais impactados. “O plano está pronto, com medidas em várias frentes, incluindo crédito, mas não posso antecipar decisões ainda não tomadas, por respeito ao presidente”, afirmou Haddad. Ele informou que as propostas serão apresentadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a partir de segunda-feira (28), após a finalização do plano pelos técnicos na quarta-feira (23). Segundo o ministro, a tarifa pode afetar mais de 10 mil empresas brasileiras, mas também impactará consumidores americanos. “Suco de laranja, café e hambúrguer podem ficar mais caros nos EUA”, destacou Haddad.
Taurus avalia mudar operações para os EUA caso tarifaço seja confirmado, e ações caem bruscamente
A Taurus, principal fabricante de armas de fogo do Brasil, avalia transferir suas operações para os Estados Unidos caso a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros entre em vigor em 1º de agosto, segundo o presidente da empresa, Salesio Nuhs, em entrevista ao site Berlinda. A medida poderia resultar na demissão de cerca de 15 mil trabalhadores, incluindo funcionários diretos e terceirizados, com a fábrica localizada em São Leopoldo (RS), na região metropolitana de Porto Alegre.
Nuhs afirmou que a transferência não é uma ameaça, mas uma medida emergencial. “Com uma taxação de 50%, diversos setores no Brasil se tornam inviáveis. Não é apenas questão de reduzir margens, é inviabilidade total”, explicou. As ações da Taurus caíram 7,68% na B3 na segunda-feira (28), cotadas a R$ 4,81. Segundo Virgílio Lage, da Valor Investimentos, a possibilidade de transferência e a proximidade do prazo são “notícias muito negativas” para a empresa, que exporta cerca de 60% de sua produção aos EUA, além de depender de peças brasileiras para suas fábricas na Geórgia, enfrentando dupla taxação.
Nuhs criticou a diplomacia brasileira, apontando falhas que levaram ao cenário atual. Ele destacou que a carta enviada pelo Brasil em maio, quando as tarifas eram de 10%, não obteve resposta do governo Trump, o que classificou como “tragédia”. “Isso reflete nossa incapacidade de negociar um tema tão sério, gerando insegurança jurídica para empresários e trabalhadores”, disse.
O governo Lula tem buscado diálogo com os EUA, mas, a poucos dias do prazo, aposta na via diplomática. O chanceler Mauro Vieira estará em Nova York para uma conferência da ONU e sinalizou disposição para negociar em Washington, caso o governo Trump aceite. No entanto, um funcionário da Casa Branca afirmou à Folha de S.Paulo na sexta-feira (25) que os EUA consideram insuficiente o engajamento brasileiro nas negociações.
Integrantes do governo brasileiro interpretam que os EUA podem estar criando uma narrativa para culpar Lula pelas tarifas e que Trump busca tratar de questões políticas, não apenas comerciais — algo que o Brasil rejeita. Em carta de 9 de julho a Lula, Trump relacionou a elevação das tarifas a uma suposta “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro e a ordens judiciais que limitariam a liberdade de expressão.
Auxiliares de Lula enfatizam que não haverá concessões políticas. O Brasil insiste em negociações comerciais. Segundo a Bloomberg, o governo Trump prepara uma justificativa legal para as tarifas, apesar de citar erroneamente um déficit comercial com o Brasil, quando, na verdade, os EUA têm superávit.
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