março 7, 2026

Portal Rádio London

Seu portal de músicas e notícias

O HOMEM QUE OUVIU E TEVE CORAGEM DE AGIR

5 min read



Compartilho aqui algumas reflexões sobre o personagem bíblico de Jetro, o sogro de Moisés, devido ao paralelo de eventos atuais não quero que estas histórias passem despercebidas.

Jetro, um nome que carrega uma porção inteira da Torá. Um sacerdote midianita, sogro de Moisés, que ouviu o que D’us fez pelo Seu povo e decidiu: “Eu preciso fazer parte disso”. Ele viu os milagres, a saída do Egito, o mar se abrindo, e veio. Converteu-se. Escolheu. O que ele ouviu de tão especial que o fez agir, quando tantos outros apenas ouviram e seguiram suas vidas?

Rashi (rabino judeu do século 11 e amplamente considerado o maior comentarista da Torá e do Talmud) pergunta exatamente isso: o que Jetro ouviu que o trouxe até nós? A resposta está no que ele viu com clareza que quase ninguém viu: o mar se partindo e a guerra com Amalek. O mar se partindo eu entendo. É impossível não se impressionar. Mas a guerra com Amalek? Os judeus nem venceram de forma decisiva. Foi, no máximo, um empate. Então por que justamente esse episódio o impactou tanto?

Porque Amalek atacou exatamente quando não fazia nenhum sentido atacar. O povo judeu acabara de humilhar o Egito, o mar se abrira, os milagres eram visíveis para o mundo inteiro. Todos temiam os judeus. E Amalek decidiu: “Vamos esfriar esse fervor”. Sem motivo lógico. Só porque sim.

Porque o ódio ao judeu (tão disseminado nas redes sociais) nunca precisou de motivo lógico. E Jetro percebeu: se o mundo insiste em atacar esse povo mesmo quando ele está claramente sob proteção divina, é porque há algo maior aqui. Algo especial. Algo eterno.

Hoje, nós também vemos milagres. Vemos mísseis sendo interceptados no céu como se uma mão invisível os desviasse. Vemos um país menor que o estado de Sergipe resistir a ameaças que derrubariam nações inteiras. Vemos um povo de 0,2% da população mundial ocupar 99% das manchetes quase sempre com acusações, quase nunca com admiração. E mesmo depois do dia mais escuro, 7 de outubro, quando o mundo viu o que vimos, muitos escolheram virar as costas antes mesmo de Israel responder.

Jetro viu isso há milhares de anos e entendeu. É como se Jetro enxergou na janela do futuro o que seria um dia a nação moderna de Israel. A própria existência de Israel é, em si, um milagre que desafia estatísticas, lógica e o curso habitual da história. Um país renascido há menos de oitenta anos, cercado por inimigos desde o primeiro dia, obrigado a enfrentar cinco exércitos praticamente sem armas, sem aliados reais e sem garantias de sobrevivência, e que ainda assim permaneceu de pé. Não apenas sobreviveu, mas floresceu, triunfou. Em meio a uma região marcada por autoritarismo, violência e estagnação, Israel tornou-se uma fonte rara de luz: uma democracia vibrante, um polo de ciência, tecnologia e inovação, um dos países mais prósperos do mundo. Nada disso era “natural”, nada disso era esperado. A existência contínua de Israel não é apenas um fato histórico; é um testemunho vivo de resiliência, propósito e algo maior que a simples força humana, um país pequeno que resiste a tempestades que engoliriam impérios.

E agora, à beira do abismo, sentimos o sopro de um novo Amalek. O Irã, com suas promessas de aniquilação, cercando-nos como lobos, anuncia o conflito decisivo. Não é só mais uma guerra; é o eco antigo daquele ódio irracional que não suporta a nossa existência. Eles veem os milagres, veem a resiliência que desafia toda lógica, e ainda assim avançam, porque o ódio ao judeu nunca precisou de razão. Poucos entendem hoje, mas Jetro parece ter entendido isto a milênios.

Por isso ele disse duas palavras que ecoam até agora: Baruch Hashem (Bendito seja D’us). Ele abençoou D’us antes de ter todas as provas na mão. Antes de entender tudo intelectualmente. Ele acreditou primeiro. Nós, no mar, precisamos ver os corpos dos egípcios na praia para só então acreditar. Jetro nos ensinou que a fé verdadeira vem antes da certeza, especialmente quando tudo parece escuro.

Depois, ele olhou para Moisés, o maior líder da história, sentado de manhã até a noite julgando o povo sozinho, e disse: “Isso não é bom”. “Lo tov”. As mesmas palavras que D’us usou quando viu Adão sozinho: “Não é bom que o homem esteja só”, porque ninguém, nem mesmo o grande Moisés foi feito para carregar o mundo nas costas sem ajuda. A Torá está nos dizendo, com toda a ternura, que solidão não é plano de D’us. Que precisamos uns dos outros. Que pedir ajuda não é fraqueza, é necessidade.

E então chega o momento mais belo de todos: o povo acampa aos pés do Sinai. A Torá poderia ter dito “e eles acamparam”. Mas diz “e ele acampou”. No singular. Rashi explica: keish echad belev echad. Como um só homem, com um só coração. Naquele instante, milhões de pessoas, com todas as suas diferenças, estavam unidas. Sem brigas internas, sem política, sem divisão. Só um coração batendo no mesmo ritmo. Essa é a força do povo judeu. Quando estamos assim, ninguém nos toca. Quando nos dividimos, os inimigos sentem o cheiro da fraqueza.

Eu penso nos meses antes de 7 de outubro. As ruas cheias, as discussões acaloradas, a sensação de que estávamos nos despedaçando por dentro. E o Hamas escolheu exatamente aquele momento. Eles mesmos deixaram escrito: viram a divisão e acharam que tinham chance. Mas também penso em outro dia, dentro dessa mesma dor. O dia em que os corpos da família Bibas voltaram. Naquele dia não havia esquerda nem direita, religioso nem secular. Só lágrimas. Só luto coletivo. Voltamos a ser keish echad (como um só). E, por uma coincidência que só D’us explica, as iniciais dos nomes deles: Kfir, Ariel, Yarden, Shiri formam exatamente a palavra “keish”. Eles nos uniram de novo. Mesmo na dor mais profunda. Essa porção nos lembra quem somos. Nos lembra que somos especiais não porque somos perfeitos, mas porque carregamos uma missão. Que nossa resiliência não é natural é sobrenatural. Que nossa unidade é nossa maior arma. Que nossa fé precisa vir antes das provas. Que não fomos feitos para ficar sozinhos, e que, no fim, tudo isso culmina nos Dez Mandamentos, o momento em que D’us falou diretamente conosco e nos deu o mapa para sermos pessoas melhores, judeus melhores, seres humanos melhores.

Baruch Hashem por essa Torá que, milhares de anos depois, ainda fala tão diretamente ao nosso coração.