Governo Trump envia carta oficial de condolências ao RJ pelas mortes de quatro policiais na megaoperação
8 min read
Especialistas classificam apoio da DEA ao RJ como interferência inadequada e violação à soberania brasileira.
DEA envia carta de condolências ao RJ por mortes de policiais na megaoperação com 121 vítimas.
Uma semana após a Operação Contenção – a mais letal da história do estado, com 121 mortos (117 suspeitos do Comando Vermelho e 4 policiais) nos complexos da Penha e do Alemão em 28 de outubro –, a Divisão Antidrogas dos EUA (DEA) encaminhou carta oficial ao secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, expressando “profundo pesar” pelas perdas e oferecendo “qualquer apoio necessário”.
Assinada por James M. Sparks, representante da DEA vinculado ao Consulado-Geral dos EUA no Rio, o documento timbrado pelo Departamento de Justiça americano destaca: “É com profundo pesar que expressamos nossas mais sinceras condolências pela trágica perda dos quatro policiais que tombaram no cumprimento do dever […] Sabemos que a missão de proteger a sociedade exige coragem, dedicação e sacrifício”. Sparks elogia o “trabalho incansável” das forças fluminenses e reforça disponibilidade para cooperação.
Policiais mortos na ação
- Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, 51 anos, comissário da 53ª DP (Mesquita);
- Rodrigo Velloso Cabral, 34 anos, da 39ª DP (Pavuna);
- Cleiton Serafim Gonçalves, 42 anos, 3º sargento do Bope;
- Heber Carvalho da Fonseca, 39 anos, 3º sargento do Bope.
A manifestação ocorre em meio à articulação do governador Cláudio Castro (PL) com o governo Trump para classificar o CV como organização narcoterrorista. No início de 2025, o RJ entregou à embaixada americana relatório confidencial pedindo sanções econômicas a aliados da facção no exterior, bloqueio de ativos e cooperação ampliada com DEA, FBI e Interpol.
Reação da oposição
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), protocolou no STF pedido de inquérito contra Castro por “potenciais crimes contra o Estado Democrático de Direito”, incluindo atentado à soberania nacional e espionagem, ao negociar com estrangeiros sem aval federal. Lindbergh requer afastamento cautelar do governador e quebra de sigilos.
Enquanto o Planalto resiste à classificação de facções como terroristas – temendo sanções a bancos brasileiros via Swift –, a carta da DEA reforça o alinhamento EUA-RJ no combate ao CV, contrastando com críticas de Lula à “matança” na operação.
Especialistas criticam carta de condolências da DEA ao RJ como interferência indevida dos EUA na segurança brasileira
Especialistas em relações internacionais e história consultados pela Agência Brasil classificaram como “inadequado” e “incomum” o comunicado da Divisão Antidrogas dos EUA (DEA) ao secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Santos, que ofereceu “qualquer apoio necessário” após a Operação Contenção – com 121 mortos, incluindo quatro policiais – e expressou condolências pelas perdas.
O professor Bruno Lima Rocha (Unifin) comparou a ação à “paradiplomacia” da Guerra Fria, em que governos subnacionais (como estados ou secretarias) estabelecem relações diretas com potências estrangeiras, ignorando o Itamaraty e configurando ingerência. Ele citou paralelos com a Lava Jato, quando autoridades brasileiras mantiveram contatos diretos com o FBI, atropelando a diplomacia formal.
Raphael Lana Seabra (UnB), especialista em história latino-americana, reforçou: “Isso não cabe ao governo dos EUA. Eles têm problemas graves com narcotráfico e máfia interna, e ninguém oferece ‘apoio’ quando há tiroteios lá”. Para ele, a oferta viola a soberania nacional e reflete a postura intervencionista de Trump.
Críticas ao “narcoterrorismo
“Ambos rejeitaram a tentativa de classificar facções como Comando Vermelho como “narcoterroristas”. Rocha argumentou que terrorismo exige motivação ideológica ou política para tomada de poder, não mera acumulação de riqueza via crime organizado – chamando a reclassificação de “aberração arriscada”. Seabra citou a Venezuela, onde os EUA admitiram operações secretas da CIA, ignorando leis internacionais em nome do combate ao “narcoterrorismo”.
O que fazer
Seabra defende solução nacional: atacar o crime na fonte financeira, cortando lavagem de dinheiro e elites envolvidas, em vez de confrontos na base da pirâmide.
Rocha propõe resposta conjunta da PF e Itamaraty, repudiando a carta e alertando para governadores de direita que “se subordinam” a potências estrangeiras. Ele sugere tipificar tais atos como violação de soberania e crime de traição à pátria, nos termos da Lei de Segurança Nacional.
A carta da DEA, assinada por James Sparks e timbrada pelo Departamento de Justiça, ocorre em meio a articulações de Cláudio Castro (PL) para sanções americanas contra aliados do CV no exterior – estratégia resistida pelo Planalto.
Derrite culpa “cultura marxista” por falhas na Justiça criminal e elogia megaoperação no RJ como “cenário de guerra”
O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP), criticou duramente o que chamou de “cultura marxista” no sistema penal brasileiro, afirmando que ela trata “bandido como coitadinho, vítima da sociedade”. A declaração foi feita nesta segunda-feira (3) durante o Fopa 2025 (Fórum Paulista de Desenvolvimento), em Itu (SP), onde elogiou a Operação Contenção no Rio – que deixou 121 mortos nos complexos da Penha e do Alemão – como “bem estruturada e planejada”.
“Infelizmente, o sistema de justiça criminal no nosso país é falho por conta de uma cultura marxista que trata bandido como um ‘coitadinho’. O bandido comete crime com certeza de que será solto logo”, afirmou Derrite, defendendo mudanças legislativas no Congresso para reduzir reincidência e endurecer progressão de regime.
Ele comparou o RJ a um “cenário de guerra” enfrentado apenas pelas forças fluminenses e rebateu críticas de “pseudoespecialistas” que priorizam apenas o combate à lavagem de dinheiro: “Uma coisa não exime a outra. Em SP fizemos isso”. Derrite citou as operações Escudo e Verão na Baixada Santista, “amplamente criticadas por quem não conhece a realidade dos heróis”.
Licença para relatar PL antiterrorismo
Derrite confirmou que se licenciará temporariamente do cargo para reassumir o mandato na Câmara e relatar o PL 1.283/2025, que equipara facções como PCC e Comando Vermelho a organizações terroristas, ampliando a Lei Antiterrorismo para atos de domínio territorial, uso de armas pesadas e barricadas.
“No que depender de mim, PCC, CV ou qualquer facção merecem ser classificados como terroristas para endurecer progressão de pena e mantê-los mais tempo presos”, declarou a jornalistas, projetando votação em até duas semanas na CCJ e plenário. A fala ocorreu no mesmo evento com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que defendeu o pacote antifacção do governo Lula – sem enquadramento como terrorismo –, destacando confronto “por terra, mar e ar”. Derrite disse desconhecer detalhes do projeto federal, mas apoiar “qualquer iniciativa que encareça o custo do crime”.
A proposta ganha urgência pós-megaoperação no RJ e apoio da direita, contrastando com resistências do Planalto e Itamaraty, que veem risco de interferência externa (como sanções dos EUA). Críticas da oposição, como do ministro Paulo Teixeira (PT), acusam Derrite e Tarcísio de Freitas de “subordinação” a Trump.
Derrite se licencia da Secretaria de Segurança de SP para relatar PL que equipara facções criminosas a organizações terroristas
O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP-SP), foi exonerado temporariamente na terça-feira (4) para reassumir seu mandato como deputado federal em Brasília. O objetivo é atuar como relator do Projeto de Lei (PL) 1.283/2025, que altera a Lei Antiterrorismo (13.260/2016) para enquadrar facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), além de milícias, como organizações terroristas.
O afastamento do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) deve durar cerca de uma a duas semanas, até o fim das votações na Câmara. Inicialmente, a relatoria era do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que cedeu o posto para prestigiar Derrite, reconhecendo sua experiência no combate ao crime organizado. A manobra também visa fortalecer a pré-candidatura de Derrite ao Senado em 2026.
Apresentado em março pelo deputado Danilo Forte (União-CE), o PL ganhou impulso após a megaoperação policial no Rio de Janeiro, em 28 de outubro, contra o CV, que resultou em 121 mortes oficiais. A proposta amplia o conceito de terrorismo para incluir atos motivados por domínio territorial, retaliação a políticas públicas ou terror social, independentemente de motivação ideológica.
Na segunda-feira (3), o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Paulo Azi (União-BA), incluiu o projeto na pauta do colegiado. Embora o texto tenha urgência aprovada desde maio – o que dispensa análise em comissões –, Azi optou por pautá-lo para debater questionamentos sobre constitucionalidade. “Os questionamentos sobre a constitucionalidade precisam ser esclarecidos na comissão”, explicou Azi, visando abreviar discussões no plenário. A votação na CCJ, marcada para terça (4), foi adiada para quarta (5) após pressão governista, que pediu vista. Na CCJ, o relator é Nikolas Ferreira, que apresentou parecer favorável, argumentando que a atuação de facções gera “terror real e mensurável” à população. No plenário, a relatoria caberá a Derrite.
Por que o PCC não é considerado grupo terrorista no Brasil?
Pela Lei Antiterrorismo (13.260/2016), o crime exige motivação ideológica, política, religiosa, xenofóbica ou discriminatória para provocar terror generalizado. Facções como PCC e CV atuam por lucro econômico – via tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro –, sem fins políticos ou ideológicos. O ministro Ricardo Lewandowski reforçou: “Uma coisa é terrorismo; outra são facções criminosas”.
“Uma coisa é terrorismo, outra são facções criminosas. O terrorismo envolve sempre uma nota ideológica, uma atuação política, repercussão social e fatores ideológicos. Já as facções criminosas são constituídas por grupos que sistematicamente praticam crimes previstos no Código Penal. É muito fácil identificar o que é uma facção criminosa. Já o terrorismo envolve uma avaliação mais subjetiva”.
Polêmica sobre soberania
Governistas veem risco de intervenção estrangeira, especialmente dos EUA, que pressionam pela classificação para aplicar sanções. O líder do PT, Lindbergh Farias (PT-RJ), chamou o PL de “inconstitucional” e “entreguista”. Gleisi Hoffmann (PT) afirmou que o governo é “terminantemente contra”, pois abre brecha para interferências externas.
A oposição acusa leniência: “28% da população vivem sob comando do crime organizado. Cadê a soberania?”, questionou Cabo Gilberto Silva (PL-PB).
O governo Lula contrapõe com o PL Antifacção, que cria penas de até 30 anos para controle territorial, sem enquadramento terrorista. A proposta da oposição segue em tramitação acelerada, com expectativa de votação em plenário até meados de novembro.
