Operação policial desmonta esquema que cobrava por milagres
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Operação investiga grupo de telemarketing religioso que cobrava por supostos “milagres”.
Telemarketing da fé lesou milhares de pessoas no Rio de Janeiro.
Uma operação conjunta da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Ministério Público Estadual deflagrou na quarta-feira (24) uma ofensiva contra um esquema sofisticado de estelionato religioso, desarticulando uma quadrilha que se aproveitava da fé e da vulnerabilidade de milhares de brasileiros. O grupo, liderado por Luiz Henrique dos Santos Ferreira, conhecido nas redes como Pastor Henrique Santini ou Profeta Santini, teria utilizado um elaborado sistema de telemarketing para vender falsas promessas de cura e milagres, cobrando valores que chegavam a R$ 1.500 das vítimas. Os crimes aconteciam principalmente a partir de call centers localizados em Niterói e São Gonçalo, envolvendo mais de 70 atendentes aliciados por anúncios online, muitos sem vínculo ou formação religiosa e, segundo a denúncia, até adolescentes. As investigações deram início em fevereiro, quando agentes identificaram o centro de operações e flagraram dezenas de pessoas prestando atendimento telefônico, utilizando áudios previamente gravados do líder do grupo para simular proximidade com os fiéis.
Segundo os inquéritos conduzidos pela 76ª DP (Centro de Niterói), o esquema se consolidou como uma das maiores operações de fraude espiritual já descobertas no estado. O grupo manipulava as redes sociais para atrair seguidores; Santini divulgava vídeos com mensagens religiosas e convidava os fiéis a solicitarem orações ou milagres por telefone. O contato resultava em abordagens pelos atendentes, que, seguindo roteiros e gravações, persuadiam as vítimas a efetuar transferências via PIX sob a promessa de bênçãos espirituais imediatas ou curas milagrosas. As falsas doações arrecadavam montantes expressivos, chegando a movimentar pelo menos R$ 3,3 milhões nos últimos dois anos, segundo o Ministério Público. Toda a estrutura financeira envolvia uma rede de contas bancárias em nome de terceiros, dificultando o rastreamento e ampliando o alcance do golpe em território nacional.
A apuração revelou, além da prática reiterada de estelionato, delitos como charlatanismo, curandeirismo, associação criminosa, falsa identidade, corrupção de menores e lavagem de dinheiro. Pelo menos 23 pessoas foram denunciadas e tornaram-se rés, incluindo Santini, que já possuía um número expressivo de seguidores nas redes e utilizava a visibilidade para expandir o golpe. Para ampliar a arrecadação, o suposto profeta criava novas campanhas e metas diárias para seus funcionários, dispensando quem não atingisse os objetivos estipulados. O dinheiro das cobranças não era direcionado à igreja, mas sim a contas pessoais de integrantes da quadrilha, demonstrando a intenção inequívoca de se beneficiar economicamente por meio da exploração da fé alheia. Entre os indícios recolhidos, os agentes da Operação Blasfêmia apreenderam dinheiro em espécie, cartões pré-pagos, celulares, notebooks e documentos que comprovam as metas de desempenho impostas aos participantes do esquema.
Ao final da mobilização policial, a Justiça determinou bloqueio de contas, sequestro de bens, monitoramento eletrônico do líder religioso e a continuidade das investigações para mapear novos envolvidos e vítimas do golpe. O caso reacende o alerta sobre os riscos do uso indevido da tecnologia e das redes sociais para a prática de crimes de cunho religioso, especialmente diante da carência de fiscalização no setor. A expectativa, segundo autoridades, é de que as apurações sirvam de exemplo e instrumento de dissuasão para futuras tentativas de exploração financeira da fé popular. O Ministério Público reforça que, embora a liberdade religiosa seja um direito constitucional, crimes que utilizam o pretexto da espiritualidade para lesar cidadãos serão combatidos com rigor. O desdobramento do processo caminha para punições exemplares, podendo inclusive influenciar novas regulamentações sobre serviços religiosos à distância.
Desdobramentos do combate à fraude religiosa via call center
O enfrentamento a esquemas como o desbaratado pela Operação Blasfêmia evidencia a necessidade urgente de mecanismos mais eficazes de controle e denúncia de fraudes religiosas, sobretudo em ambientes virtuais e remotos. A mobilização das autoridades em torno desse caso gerou discussões no meio jurídico e social sobre a proteção a fiéis e a punição exemplar aos responsáveis. As investigações abertas recentemente indicam que a atuação de organizações criminosas com apelo à fé tem sido impulsionada pela facilidade de disseminação em redes sociais e aplicativos de mensagens, instrumentos que aceleram tanto a captação das vítimas quanto a circulação de grandes volumes financeiros sob falsas justificativas. Além da responsabilização penal dos envolvidos, o Ministério Público e a Polícia Civil estudam o fortalecimento de canais digitais para denúncias anônimas e campanhas de orientação à população sobre os riscos de transações religiosas não supervisionadas.
O caso também serve de alerta ao setor religioso formal, que tem sido cobrado para maior transparência nas arrecadações e prestação de contas à comunidade. A multiplicação de denúncias análogas nos últimos meses revela que o fenômeno está longe de ser isolado, apontando para a adoção de critérios mais rígidos na contratação e na atuação de intermediários da fé. O Conselho Nacional de Justiça acompanha o trâmite dos processos, com expectativa de decisões que consolidem entendimento sobre a configuração de estelionato religioso e responsabilização dos envolvidos tanto na esfera civil quanto penal. Para fiéis lesados, a orientação é buscar imediatamente os canais oficiais das autoridades e não repassar recursos sem a devida verificação de autenticidade e legitimidade dos solicitantes.
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