Operação mira esquema bilionário do crime organizado na Faria Lima
9 min readEsquema bilionário do crime organizado desmantelado no centro financeiro do país.
Megaoperação expõe ligação entre PCC e setor de combustíveis.
Uma das maiores operações já registradas contra o crime organizado no Brasil movimentou dezenas de cidades e atingiu em cheio a Avenida Faria Lima, em São Paulo, principal eixo financeiro do país, na quinta-feira, 28 de agosto de 2025. A Polícia Federal, em ação conjunta com a Receita Federal, Ministérios Públicos Federal e Estadual, além das polícias Civil e Militar, cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e fraude fiscal comandado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Foram mais de 1.400 agentes envolvidos em oito estados para identificar e desarticular uma rede sofisticada que atuava na cadeia produtiva de combustíveis, utilizando instituições financeiras, fintechs, fundos de investimento e empresas do setor para ocultar o patrimônio ilícito. A força-tarefa mirou 350 alvos, incluindo pessoas físicas e jurídicas, com bloqueio e sequestro de bens que somam mais de R$ 30 bilhões, enquanto a Receita Federal estima sonegação de quase R$ 2 bilhões em tributos federais. O objetivo da ofensiva era desmantelar conexões entre o crime organizado e o sistema financeiro, que operavam em camadas societárias complexas e dificultavam o rastreamento dos valores.
O esquema fraudulentamente orquestrado pelo PCC foi detalhado pelas autoridades como um dos mais complexos já vistos no país, envolvendo diversos elos da cadeia dos combustíveis desde a importação, produção, distribuição e revenda. Segundo as investigações, a organização criminosa utilizava postos de combustíveis, empresas controladoras do segmento, corretoras e até fundos de investimento registrados na própria Faria Lima para lavar dinheiro proveniente de atividades ilícitas e blindar o patrimônio dos integrantes. A operação também revelou o uso massivo de fintechs, dificultando ainda mais a identificação do fluxo dos recursos. Empresas como o Grupo Aster/Copape, uma das maiores distribuidoras do ramo, a fintech BK Bank, responsável por movimentar valores em contas bolsão consideradas não rastreáveis, e fundos como a REAG Investimentos foram citados como peças-chave neste esquema. O lucro dessas fraudes era camuflado em uma intrincada rede de fundos com múltiplas camadas, dificultando a identificação dos verdadeiros proprietários, enquanto a adulteração de combustíveis e a sonegação de tributos atingiam proporções bilionárias, prejudicando o setor e consumidores finais.
A ação das autoridades impactou diversos setores da economia, especialmente o mercado financeiro e o segmento de combustíveis, considerados essenciais para a vida econômica nacional. Segundo a Receita Federal, cerca de mil postos de combustíveis ligados ao grupo criminoso teriam movimentado R$ 52 bilhões nos últimos quatro anos, evidenciando a dimensão do controle exercido pela organização. Foram detectadas fraudes como a importação irregular de metanol, utilizado clandestinamente na produção de gasolina adulterada, além de práticas lesivas ao erário e à legislação ambiental. O bloqueio de recursos em contas e fundos de investimento – cerca de 40 apenas na região da Faria Lima – evidencia o grau de infiltração do crime organizado no sistema financeiro brasileiro. Especialistas ressaltam que o avanço do PCC sobre setores estratégicos demonstra a necessidade de ações integradas entre órgãos de fiscalização, polícia e agências reguladoras. O impacto imediato recai sobre empresas do ramo, que terão de responder judicialmente por envolvimento e poderão ter bens confiscados até que as investigações sejam concluídas.
Investigações avançam e revelam novos desafios para autoridades
À medida que as investigações prosseguem, as autoridades prometem aprofundar análises para identificar todos os envolvidos e recuperar os valores desviados pela organização criminosa. O envolvimento de instituições renomadas do mercado financeiro e a atuação de gestores responsáveis por fundos de grande porte colocam em xeque mecanismos de controle, transparência e prevenção contra crimes do sistema econômico. A expectativa é que o bloqueio de bens e as medidas de sequestro patrimonial inibam novas tentativas de lavagem e estimulem cooperação do setor privado com órgãos de investigação. O caso evidencia a crescente sofisticação das organizações criminosas e a urgência de aprimorar instrumentos legais, tecnológicos e operacionais para combater fraudes que ameaçam a ordem econômica. Nos próximos meses, devem ser implementadas novas rotinas de fiscalização em postos de combustíveis, instituições financeiras e fundos de investimento, enquanto autoridades intensificam o diálogo com BC, CVM e ANP para blindar o setor contra futuras tentativas de infiltração. Amegaoperação representa um marco no enfrentamento ao crime organizado e pode servir de modelo para futuras ações integradas em todo território nacional.
Receita Federal: “Antigamente, traficantes enterravam dinheiro; hoje, o PCC ‘bancariza’ e investe no mercado de capitais”
A superintendente da Receita Federal em São Paulo, Marcia Meng, afirmou na quinta-feira (28) que o crime organizado no Brasil está mais sofisticado devido a lacunas na regulação das fintechs. Durante a Operação Carbono Oculta, conduzida por uma força-tarefa de órgãos federais e estaduais, foi identificado um processo de “bancarização” de recursos ilícitos, com o dinheiro do crime organizado entrando no sistema financeiro formal por meio dessas empresas de tecnologia financeira. Segundo Meng, diferente dos bancos tradicionais, as fintechs não reportam às autoridades os verdadeiros donos dos recursos movimentados. “O crime organizado dominou toda a cadeia de combustíveis. Nesta operação, observamos a bancarização desses recursos, com uma inteligência financeira por trás, revelada pela Receita Federal. As fintechs envolvidas facilitaram essa integração do dinheiro ilícito”, explicou. Ela destacou que, uma vez no sistema financeiro, esses recursos passam despercebidos, evidenciando uma brecha regulatória crítica.
Meng comparou o esquema à série Narcos, da Netflix, que retrata o Cartel de Medellín de Pablo Escobar. Segundo ela, o Primeiro Comando da Capital (PCC) utiliza fintechs e fundos de investimento imobiliário de forma semelhante, ocultando beneficiários e fazendo o capital ilícito render. “Antigamente, em Narcos, os traficantes enterravam o dinheiro, que se desvalorizava. Hoje, o crime organizado bancariza e investe no mercado de capitais para lucrar”, afirmou. O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, reforçou a urgência de regulamentar as fintechs. “Há um paraíso fiscal no Brasil formado por fintechs e fundos de investimento. Sem obrigação de transparência, o dinheiro entra por contas bolsão em nome das fintechs, não dos reais beneficiários, e é repassado para gestores que investem em fundos encadeados, usados para lavagem de dinheiro via empréstimos ou debêntures”, explicou. Ele citou a aquisição de mais de 1.500 caminhões e 350 veículos leves como parte do esquema. A Receita identificou 40 fundos de investimento, com R$ 30 bilhões em patrimônio, controlados pelo PCC, operando na Faria Lima, em São Paulo. Esses fundos, geralmente com um único cotista (outro fundo), financiaram a compra de um terminal portuário, quatro usinas de álcool (mais duas em negociação), 1.600 caminhões, mais de 100 imóveis, seis fazendas em São Paulo (R$ 31 milhões) e uma residência em Trancoso (BA, R$ 13 milhões). A principal fintech investigada movimentou R$ 46 bilhões não rastreáveis.
Empresas investigadas:
- Grupo Aster/Copape: Controla usinas, formuladoras, distribuidoras e postos de combustíveis usados pelo PCC.
- BK Bank: Fintech que operava contas bolsão para movimentar recursos ilícitos.
- Reag: Fundo de investimento usado para aquisição de empresas e blindagem patrimonial.
Barreirinhas destacou a Receita Federal como a maior empresa de inteligência de dados da América Latina, comprometida em colaborar com a segurança pública.
As empresas investigadas também importavam produtos como nafta e diesel, comercializados em uma rede de mais de mil postos em dez estados (SP, BA, GO, PR, RS, MG, MA, PI, RJ e TO). Esses postos movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com recolhimento de tributos incompatível, sendo autuados em R$ 891 milhões. Cerca de 140 postos, sem movimentação no período, receberam R$ 2 bilhões em notas fiscais, possivelmente para ocultar transações ilícitas.
Força-tarefa nacional
A Operação Carbono Oculta, parte das operações Quasar e Tank, envolveu 1.400 agentes cumprindo mandados em oito estados para desmantelar o esquema do PCC no setor de combustíveis. Mais de 350 alvos, incluindo pessoas físicas e jurídicas, são investigados por crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato. O esquema sonegou mais de R$ 7,6 bilhões em impostos. A força-tarefa reúne o Ministério Público de São Paulo (Gaeco), Ministério Público Federal, Polícias Federal, Civil e Militar de São Paulo, Receita Federal, Secretaria da Fazenda de SP, Agência Nacional do Petróleo (ANP) e Procuradoria-Geral do Estado de SP (Gaerfis), com apoio de Ministérios Públicos estaduais.
Segundo o MP-SP, o PCC opera em rede com outras organizações criminosas, infiltrando-se na economia formal, especialmente no setor de combustíveis e no sistema financeiro.
Lula e Tarcísio disputam destaque na maior operação contra o crime organizado no Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), potenciais adversários nas eleições de 2026, protagonizam uma disputa pelo destaque na Operação Carbono Oculta, considerada a maior ofensiva contra o crime organizado no país. A ação teve como alvo o setor de combustíveis e atingiu diretamente a Faria Lima, principal centro financeiro do Brasil.
Para reforçar a liderança do governo federal, os ministros da Justiça, Ricardo Lewandowski, e da Fazenda, Fernando Haddad, participaram de uma coletiva de imprensa, destacando a atuação coordenada da Polícia Federal, Polícia Militar, promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e agentes das Receitas Federal e Estadual. “O crime organizado é global, não local. Só uma visão ampla, liderada pelo governo federal e estendida aos estados, pode ser eficaz. A operação abrange dez estados”, afirmou Lewandowski. Haddad destacou a colaboração com autoridades estaduais, como Ministérios Públicos e polícias, na investigação e execução dos mandados. Por meio da rede social X, Lula enfatizou que a operação resulta de um trabalho integrado iniciado com a criação do Núcleo de Combate ao Crime Organizado no Ministério da Justiça: “Hoje, o Brasil testemunhou a maior resposta ao crime organizado de nossa história. Com ações coordenadas entre Polícia Federal, Receita Federal e Ministérios Públicos estaduais, três operações simultâneas foram deflagradas nos setores financeiro e de combustíveis, em dez estados. O esforço integrado permitiu atingir o núcleo financeiro que sustenta essas práticas”, declarou.
Já Tarcísio, em vídeo publicado nas redes sociais, atribuiu o sucesso da operação ao trabalho do Gaeco e das polícias de São Paulo, que “se expandiu para todo o Brasil”. “A Operação Carbono Oculta, a maior ação de inteligência contra o crime organizado no setor de combustíveis, foi deflagrada hoje. Fruto do trabalho do Gaeco e das polícias paulistas, essa iniciativa enfrentou grupos que se julgavam intocáveis. Em São Paulo, o crime organizado não terá espaço”, afirmou o governador.
Além da Operação Carbono Oculta, Lula e Tarcísio também disputam a autoria do túnel Santos-Guarujá. Embora mantenham discursos públicos de parceria entre os governos federal e estadual para viabilizar a obra, nos bastidores, ambos competem pela sua paternidade.
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