Sindicato ligado a irmão de Lula investigado por pagamentos suspeitos
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Sindicato ligado ao irmão de Lula fazia pagamentos de “caixinha” a amiga de ex-ministro.
Nova investigação revela prática de descontos polêmicos em entidade sindical.
Uma denúncia publicada revela que o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), sediado em São Paulo e ligado à Força Sindical, está no centro de uma investigação da Polícia Federal que apura a chamada “Farra do INSS”. O sindicato traz como vice-presidente o sindicalista José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula. Documentos obtidos pelo Metrópoles apontam pagamentos realizados entre 2020 e 2023 que podem ultrapassar R$4,1 milhões, em grande parte destinados a uma empresa de nome Gestora Eficiente, pertencente à amiga de um ex-ministro da Previdência. O esquema envolveu, segundo as apurações, transferências recorrentes feitas sem justificativa formal, alavancando suspeitas sobre a origem dos fundos e sobre o envolvimento de lideranças da entidade sindical na apropriação de recursos provenientes de descontos diretos de aposentadorias. A reportagem destaca que grande parte dos beneficiados pertenciam ao círculo próximo de dirigentes sindicais, sinalizando possível conflito de interesses em meio aos contratos firmados com financeiras e seguradoras parceiras. A controvérsia cresceu após denúncias indicando que parte dos valores repassados para a empresa seriam provenientes de descontos em benefícios de aposentados do INSS, configurando uma prática sistemática que levou centenas de pessoas a registrar reclamações e propor ações judiciais contra o Sindnapi.
O contexto do escândalo remonta à parceria firmada pelo Sindnapi com o Banco Bmg e suas Lojas Help!, onde milhares de aposentados fizeram empréstimos consignados que, posteriormente, resultaram em descontos não autorizados por parte do sindicato. As investigações revelam que, ao procurar crédito nas financeiras, muitos aposentados foram informados de que o desconto em folha seria requisito obrigatório para aprovação do empréstimo, enquanto outros sequer foram comunicados sobre a existência de tal cobrança. Segundo relatos compilados por sites de reclamações e confirmados por documentos oficiais, dados e assinaturas dos aposentados teriam sido utilizados por terceiros para validar descontos mensais em prol do Sindnapi, sem que os próprios beneficiados dessem anuência expressa. O volume de dinheiro envolvido disparou nos últimos anos, especialmente após o início da parceria entre a entidade sindical e financeiras ligadas ao Bmg, que também são investigadas por repasses à empresa Gestora Eficiente, nomeada em reportagens como responsável pela captação das fichas de beneficiários. O caso expõe o funcionamento de uma operação que, segundo policiais federais e integrantes da Controladoria Geral da União, se manteve ativa graças ao envolvimento direto de lideranças sindicais com empresas criadas por familiares e amigos próximos.
O desenrolar da investigação trouxe à tona desdobramentos que ampliam os impactos do caso sobre o sistema previdenciário brasileiro. Análises apresentadas pelos órgãos responsáveis revelam uma estrutura montada para realizar transferências de valores milionários entre o Sindnapi e seus parceiros, com indícios de que a diretora jurídica da entidade, Tonia Andrea Inocentini Galleti, amiga do ex-ministro Carlos Lupi, teria recebido parte significativa dos recursos vinculados às operações suspeitas. Além dos valores destinados à Gestora Eficiente, registros apontam que até familiares de dirigentes, como a esposa do presidente Milton “Cavalo” Baptista de Souza, participaram como sócios de empresas beneficiárias do esquema. Ao mesmo tempo, o volume de filiações ao sindicato e o aumento dos descontos nos benefícios ocorriam paralelamente ao crescimento patrimonial de algumas figuras ligadas à entidade, gerando dúvidas sobre o verdadeiro destino dos recursos. A Polícia Federal e o Tribunal de Contas da União intensificaram as diligências sobre os contratos realizados entre o Sindicato e instituições privadas, buscando rastrear o fluxo financeiro de comissões e o possível envolvimento de autoridades na ampliação do esquema. Esse panorama levanta discussões sobre a transparência na gestão de sindicatos e sobre a proteção dos aposentados diante das operações de descontos sistemáticos em seus benefícios.
O caso abre precedentes para novas ações de fiscalização sobre entidades sindicais envolvidas em transações financeiras de grande escala, especialmente no contexto de parcerias com bancos e seguradoras. Segundo analistas, o desfecho da investigação poderá trazer alterações substanciais na regulamentação da concessão de descontos em benefícios previdenciários, bem como no escrutínio sobre contratos firmados entre sindicatos e empresas terceirizadas. Os próximos passos dependem da conclusão dos trabalhos realizados pela Polícia Federal e pelos órgãos de controle, que buscam provas materiais do envolvimento de dirigentes em práticas consideradas lesivas aos direitos dos aposentados. No cenário atual, cresce o clamor por maior transparência e responsabilização, impulsionando demandas judiciais e movimentos de revisão de contratos que impactam diretamente milhares de beneficiários do INSS. O futuro do Sindnapi e de suas relações institucionais permanece em aberto, sob expectativa de reformulações administrativas e sanções que podem redefinir o modelo de parceria entre entidades sindicais e instituições financeiras, com potencial reflexo em todo o sistema previdenciário brasileiro.
Entidade sindical sob investigação e futuras mudanças esperadas
O desdobramento da investigação sobre o Sindnapi traz impactos expressivos à estrutura sindical e ao sistema previdenciário nacional, marcando o cenário com novas exigências de fiscalização e controle. A exposição de práticas irregulares envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e repasses milionários para empresas associadas a familiares e amigos de dirigentes coloca na linha de frente o debate sobre a transparência nos processos internos das entidades. À medida que as apurações avançam, cresce a pressão por mudanças efetivas nas regras de contratação e na atuação das entidades sindicais junto aos beneficiários do INSS, no intuito de garantir maior proteção contra abusos e fraudes. O caso se insere na pauta de reformas administrativas e pode motivar ampliação do rigor fiscalizatório da Polícia Federal e dos órgãos de controle como a Advocacia Geral da União e o Tribunal de Contas da União, exigindo reestruturação dos procedimentos que envolvem concessão de descontos e envio de informações dos aposentados a terceiros. O futuro da relação entre sindicatos e instituições financeiras, assim como a confiança dos aposentados no sistema de representatividade, depende agora do resultado das investigações e da capacidade das autoridades de corrigir as falhas identificadas. As perspectivas apontam para revisão dos padrões de administração sindical e fortalecimento das normas voltadas à proteção dos direitos dos idosos e aposentados, sinalizando possíveis mudanças na legislação acerca das operações financeiras ligadas ao setor previdenciário nacional.
INSS remove relatório que revelou descontos indevidos em aposentadorias para entidade ligada ao PT
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) removeu de seu site um relatório que revelava descontos indevidos em benefícios, realizados em lote, que beneficiaram a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares), entidade ligada ao PT, durante o governo Jair Bolsonaro (PL).
Segundo o documento, obtido pelo Estadão e divulgado pela revista piauí, a auditoria do INSS identificou que, em setembro de 2022, foram desbloqueados 30.211 benefícios para descontos em folha a pedido da Contag, sem seguir as normas legais e sem comprovação de autorização dos beneficiários. A investigação inclui relatos de aposentados que afirmam terem sido enganados ou induzidos ao erro. O INSS alegou que o relatório foi publicado por engano antes de sua conclusão, não reconhecendo sua validade oficial. A Contag ainda não se pronunciou.
A auditoria aponta que a Coordenação-Geral de Pagamentos de Benefícios (CGPAG), ligada à Diretoria de Benefícios do INSS, enviou à Dataprev, em 22 de setembro de 2022, uma solicitação da Contag para desbloquear os benefícios, permitindo descontos em folha. Esse procedimento está no centro da fraude investigada na Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), que resultou na demissão do então ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, do ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e no afastamento de outros servidores.
A fraude, que ultrapassou R$ 3 bilhões, envolveu descontos não autorizados em benefícios de aposentados e pensionistas, favorecendo associações e sindicatos. O esquema começou no governo Bolsonaro e cresceu no governo Lula, segundo as investigações. O desbloqueio de 2022 permitiu 30.211 descontos associados à Contag e, posteriormente, a outras entidades com acordos formalizados com o INSS.
O relatório destaca que o desbloqueio em lote foi realizado sem justificativas formais ou comprovação de autorização prévia dos beneficiários, conforme exigido por lei. Os auditores apontaram falhas no controle do INSS, com ausência de rastreabilidade e transparência, agravando os impactos da operação. A Contag apresentou documentos para justificar os descontos, mas a auditoria registrou contestações de beneficiários, que relataram desconhecimento ou manipulação.
“Fui enganado. O presidente do sindicato não me informou sobre os descontos, apenas pediu que eu assinasse documentos sem explicar do que se tratava”, relatou um aposentado. Outra beneficiária afirmou: “Fui enganada. Me aposentei pelo sindicato, e eles não me disseram que fariam esses descontos.” A auditoria questiona a validade das autorizações, apontando falta de clareza na obtenção das assinaturas.
Até 22 de maio de 2025, 2.983 beneficiários pediram a exclusão dos descontos pelos canais do INSS, e 3.384 contestaram os débitos após a Operação Sem Desconto. Em 297 casos, os beneficiários rejeitaram as justificativas da Contag, alegando terem sido induzidos ao erro.
O desbloqueio de 2022 assemelha-se a outro, em 2023, no governo Lula, que liberou descontos em 34 mil benefícios e está sob investigação da PF, envolvendo o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto e Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, então chefe da Procuradoria Federal do órgão.
Desde 2019, a Contag recebeu R$ 2,59 bilhões em descontos de benefícios do INSS, sendo R$ 1,6 bilhão no governo Bolsonaro e R$ 1 bilhão no governo Lula, até a suspensão após a operação da PF. A entidade, historicamente ligada ao PT, assim como a CUT e o MST, é suspeita pela PF e pelo Ministério Público Federal de se beneficiar de descontos indevidos, com possível enriquecimento ilícito. A Contag nega irregularidades.
O governo Lula acionou judicialmente e administrativamente entidades envolvidas na fraude para ressarcimento, mas excluiu a Contag e sindicatos ligados ao PT, focando em instituições de fachada e casos de propina. O Estadão revelou que um bufê ligado à Contag, em Brasília, opera em endereço com portas fechadas, levantando suspeitas de desvios. A Contag nega qualquer irregularidade.
Farra do INSS: Empresa ligada a familiares de dirigentes do Sindnapi recebia comissões por descontos indevidos em aposentadorias
Dirigentes do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) lucravam com comissões por descontos realizados em benefícios do INSS, conforme documentos obtidos pelo Metrópoles. A prática, investigada na Operação Sem Desconto, conhecida como Farra do INSS, gerou pelo menos R$ 4,1 milhões em pagamentos à empresa Gestora Eficiente LTDA, controlada por familiares de líderes do sindicato.
Entre os beneficiados estão Daugliesi Giacomasi Souza, esposa do presidente do Sindnapi, Milton “Cavalo” Baptista de Souza, e Carlos Afonso Galleti Junior, marido da diretora jurídica Tonia Andrea Inocentini Galleti. Tonia, filha do ex-presidente do sindicato João Batista Inocentini, falecido em 2023, é amiga do ex-ministro da Previdência Carlos Lupi (PDT) e integrou o Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) até recentemente. Ela também participou da equipe de transição do governo Lula em 2022, tratando de questões previdenciárias.
A Gestora Eficiente, sediada no bairro da Liberdade, em São Paulo, tem como sócios Pamela Silva Grecco e Carlos Galleti Junior. Daugliesi foi sócia até junho de 2024. O Sindnapi, ligado à Força Sindical e presidido por Milton Cavalo, tem como vice-presidente José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Lula.
A Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal em abril de 2025, investiga o Sindnapi por descontos não autorizados em benefícios de aposentados. Notas fiscais mostram que a Gestora Eficiente recebeu R$ 4,1 milhões entre 2020 e 2023, pagos pelo Sindnapi, pelo banco BMG e pela seguradora Generali, vinculada ao BMG. Esses valores são parciais, pois há notas fiscais faltantes ou ilegíveis.
A parceria entre o Sindnapi, o BMG e as Lojas Help! gerou centenas de reclamações e ações judiciais. Aposentados relatam que, ao contratar empréstimos consignados no BMG, foram induzidos a autorizar descontos para o Sindnapi, muitas vezes sem saber. Em alguns casos, atendentes do BMG ou das Lojas Help! afirmaram que os descontos eram condição para o empréstimo; em outros, os descontos foram feitos sem menção ao sindicato.
A Gestora Eficiente processava fichas do Sindnapi e do BMG, enviando-as à Dataprev para viabilizar os descontos. O pagamento era por produtividade: quanto mais aposentados tinham descontos, maiores eram as comissões. Em 2020, a empresa faturou R$ 340,4 mil; em 2022, o valor subiu para R$ 1,08 milhão. No mesmo período, os repasses do INSS ao Sindnapi cresceram de R$ 23 milhões em 2020 para R$ 154,7 milhões em 2024, um aumento de 563,9%, segundo o Portal da Transparência.
A maioria dos novos filiados do Sindnapi veio da parceria com o BMG. Em 2022, apenas 747 pessoas se filiaram diretamente na sede do sindicato, enquanto 106 mil adesões foram via BMG, representando 99,3% do total. A Gestora Eficiente também fez pagamentos a familiares de Tonia Galleti, como Nita Gabriela Inocentini e Neuza Pereira Inocentini.
Um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) de maio de 2025 apontou que, em junho de 2023, o Sindnapi ganhou 67.255 novos filiados em um único mês. A Generali pagou R$ 1,4 milhão à Gestora Eficiente em 2023, mas os valores totais podem ser maiores devido à ausência de dados completos.
Apesar das evidências, a Advocacia-Geral da União (AGU) não incluiu o Sindnapi nas ações judiciais contra entidades envolvidas na fraude, focando em organizações de fachada e casos de propina. A AGU afirmou que ajuizou ações a pedido do INSS e da CGU, mas que novas ações podem ser propostas se surgirem provas de corrupção.
Tonia Galleti alega ter alertado Carlos Lupi sobre os descontos indevidos em junho de 2023, durante reunião do CNPS, mas o tema não foi discutido. Ela fez 26 viagens a Brasília desde março de 2023, recebendo R$ 88,8 mil em diárias e passagens do Ministério da Previdência.
Enquanto os lucros do Sindnapi cresciam, Milton Cavalo construiu uma mansão de 360 m² em Ibiúna (SP), não registrada em seu nome. Sua esposa, Daugliesi, abriu uma offshore em Miami, a Dau & Be Investments LLC, em 2025, e foi contratada para decorar o hotel do Sindnapi em Praia Grande, sem divulgação do valor.
Respostas das partes envolvidas
- Sindnapi: Nega irregularidades, afirmando que a Gestora Eficiente fazia a interface com a corretora CMG, do BMG, para o programa Viver Melhor, oferecendo benefícios como seguro de vida e assistência. Diz que as atividades foram suspensas após a Operação Sem Desconto e que não há reclamações pendentes no Reclame Aqui.
- BMG: Afirma que a Gestora Eficiente é um correspondente bancário, não prestando serviços às Lojas Help!. Garante manter controles e punir práticas indevidas.
- Generali: Declara que contratou a Gestora Eficiente para apoiar segurados associados ao Sindnapi, destacando sua integridade.
- AGU: Esclarece que priorizou ações contra entidades com fortes indícios de fraudes, como uso de laranjas e propina, mas não descarta futuras ações contra o Sindnapi se novas provas surgirem.
Manifestações completas
- Sindnapi: “A Gestora Eficiente foi contratada para fazer a interface com a CMG no programa Viver Melhor, com benefícios como seguro de vida e assistência. Suas atividades garantiram transparência na filiação, com aprovação da diretoria. Após a Operação Sem Desconto, essas atividades foram suspensas. Não há reclamações pendentes no Reclame Aqui, e contestações são tratadas pelo Meu INSS.”
- BMG: “A Gestora Eficiente é um correspondente bancário remunerado por vendas de produtos. Não presta serviços às Lojas Help!. O banco mantém controles, com sanções para práticas indevidas, como multas ou suspensão.”
- Generali: “A Generali contratou a Gestora Eficiente para apoiar segurados associados ao Sindnapi, sempre prezando pela integridade em seus negócios.”
- AGU: “A AGU ajuizou ações contra entidades com fortes indícios de fraude, como laranjas e propina, a pedido do INSS e da CGU. Novas ações podem ser propostas com base em novas provas de corrupção.”
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