Crise na Bolívia às vésperas das eleições
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A Bolívia, em meio a uma crise, vai às urnas buscando uma mudança para a direita após duas décadas.
Pão, gasolina e dólares em falta ampliam tensão eleitoral.
Em La Paz e em outras cidades bolivianas, a rotina de filas para combustíveis, prateleiras vazias em padarias e a dificuldade para comprar dólares compõe o cenário de mal-estar social a poucos dias das eleições marcadas para 17 de agosto, envolvendo diretamente consumidores, comerciantes, caminhoneiros e autoridades locais que tentam administrar a oferta com controles e racionamentos, enquanto o governo de Luis Arce, que não buscará a reeleição, lida com a pressão sobre as reservas internacionais usadas para sustentar subsídios e importações de gasolina, diesel e insumos como o trigo, o que, segundo relatos de moradores e balanços recentes, contribuiu para descontinuidades na cadeia de abastecimento e encarecimento no varejo, alimentando a percepção de que a escassez supera episódios pontuais e pode perdurar durante o processo eleitoral, ao mesmo tempo em que pesquisas mostram que a preocupação com a economia domina o humor do eleitor, com a esquerda historicamente dominante perdendo tração frente a nomes da oposição e com o debate público concentrado em como e quando normalizar o fornecimento básico, estabilizar preços e recuperar a confiança cambial, elementos que explicam por que a igualdade de acesso a bens essenciais e a previsibilidade de preços se transformaram no principal termômetro do pleito, impactando decisões de voto, estratégias de campanha e a forma como o Estado organiza, fiscaliza e comunica medidas emergenciais para enfrentar a crise.
O pano de fundo dessa fase crítica reúne anos de política de preços administrados para combustíveis, dependência de importações e uso recorrente das reservas para atenuar choques, estratégia que funcionou enquanto havia divisas suficientes e a inflação se mantinha moderada, mas que, sob restrição crescente de dólares, encontrou limites práticos e expôs a fragilidade logística, elevando custos e intermitências na distribuição, com transportadores relatando atrasos e cidadãos relatando que precisam percorrer inúmeros estabelecimentos para garantir itens básicos, como o pão fresco, diante de padarias sem farinha e moinhos operando com insumos contingenciados, quadro que se soma à aceleração inflacionária observada nos últimos meses, ao encarecimento de importados e ao mercado paralelo de moeda estrangeira ganhando relevância, fortalecendo a narrativa eleitoral de que a normalização do câmbio e do suprimento energético é a condição para estabilizar preços e recompor o abastecimento, enquanto atores políticos disputam o protagonismo de soluções rápidas, como ajustes temporários nos subsídios, acordos de importação e priorização de setores essenciais, e a sociedade avalia o custo dessas saídas, o risco de novos desequilíbrios e o impacto direto no poder de compra das famílias.
Os desdobramentos imediatos dessa conjuntura no tabuleiro eleitoral são claros ao deslocar a disputa para a competência na gestão econômica e logística, com candidatos oposicionistas capitalizando o descontentamento diante de filas em postos e gôndolas vazias e prometendo reorganizar o regime de subsídios, ampliar canais de importação e reconstruir reservas, ao passo que quadros ligados ao governo defendem que fatores externos, choques climáticos e bloqueios internos agravaram problemas temporários, afirmando que a recuperação é viável com coordenação e medidas técnicas, ao mesmo tempo em que analistas destacam que a quebra de previsibilidade no fornecimento e no câmbio aumenta a aversão ao risco, reduz investimentos e incentiva comportamentos defensivos, como estocagem e busca por moeda forte, o que retroalimenta a escassez, intensificando a pressão de curto prazo sobre preços e sobre a logística, e ampliando o custo político de qualquer ajuste, enquanto o eleitorado, dividido entre a urgência de soluções e o temor de cortes abruptos, avalia propostas que vão de reformas graduais da estrutura de subsídios a iniciativas de choque para recompor estoques estratégicos, diversificar fornecedores e criar mecanismos de estabilização cambial que reduzam a dependência de reservas em momentos de estresse.
No horizonte imediato, a evolução do abastecimento durante a semana eleitoral e nas semanas subsequentes servirá de teste prático para as promessas de campanha e para a capacidade de coordenação institucional, com foco em liberar gargalos logísticos, assegurar a chegada de combustíveis e farinha aos principais centros e reduzir a volatilidade de preços no varejo, enquanto o debate sobre a reconstrução de reservas e a calibragem de subsídios tende a dominar a agenda do novo governo, exigindo transparência, metas claras e comunicação permanente para reancorar expectativas, diminuir o prêmio de risco e impedir novas ondas de desabastecimento, numa trajetória que, se bem-sucedida, pode recompor gradualmente a confiança do consumidor e do investidor, reativar cadeias produtivas e reduzir a pressão inflacionária, mas que, se mal executada, prolongará a escassez e acentuará a instabilidade política, mantendo a economia no centro da disputa e condicionando as possibilidades de recuperação a acordos internos, à capacidade de financiamento externo e à credibilidade de um plano que responda, com prioridade, à escassez de pão, de combustíveis e de dólares que hoje define a realidade boliviana e o clima de decisão nas urnas.
Caminhos para estabilizar abastecimento e confiança
Com a economia no centro do debate e a crise de abastecimento ditando prioridades, o próximo ciclo político na Bolívia tende a concentrar esforços em três frentes interligadas orientadas à estabilidade e à segurança do consumidor, começando pela normalização do suprimento de combustíveis por meio de contratos emergenciais e planejamento logístico que evite filas e perdas de produtividade, passando pela recomposição de estoques de trigo e farinha para garantir oferta contínua de pão e derivados, e culminando na restauração da confiança cambial com estratégias de acesso a divisas, linhas de crédito e melhoria da transparência fiscal e parafiscal, a fim de reduzir o hiato entre a taxa oficial e a paralela, com efeitos benignos sobre a formação de preços e sobre o humor do varejo, e, por consequência, sobre a percepção do eleitorado acerca da capacidade do Estado de entregar previsibilidade, o que demanda coordenação técnica entre ministérios, bancos públicos, importadores e distribuidores, metas realistas, comunicação clara e monitoramento público das entregas, para que a palavra de ordem da campanha, abastecimento, saia do discurso e se converta em prateleiras cheias, postos funcionando e menor pressão sobre o orçamento doméstico, condição mínima para que a transição política ocorra com menor tensão social e para que a agenda de médio prazo, que inclui produtividade, diversificação e integração logística regional, encontre terreno estável para avançar.
A Bolívia, em meio a uma crise, dirige-se às urnas em busca de uma guinada à direita após duas décadas
Enfrentando uma grave crise econômica, os bolivianos se preparam para uma drástica virada à direita nas eleições presidenciais de domingo, encerrando duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), liderado por Evo Morales. O país, com 11,3 milhões de habitantes, forte presença indígena e riqueza em lítio, enfrenta escassez de dólares, combustíveis e alimentos básicos.
A inflação anual ultrapassa 25%, o maior índice desde 2008, sendo amplamente atribuída ao impopular governo do presidente Luis Arce, que abandonou a reeleição. “Nossa situação está no fundo do poço. A moeda desvalorizou, os salários não dão conta, tudo está caríssimo”, desabafou Freddy Millán, engenheiro de 53 anos, morador de Santa Cruz, à AFP. Ele reflete o cansaço de muitos que desejam abandonar o socialismo.
Nas pesquisas, o milionário Samuel Doria Medina, 66, e o ex-presidente Jorge Quiroga, 65, lideram entre os oito candidatos, devendo ir ao segundo turno em 19 de outubro. Ambos prometem extinguir o modelo econômico estatal do MAS. Historicamente, a economia boliviana dependeu das exportações de gás, que caíram desde 2017.
A esquerda pode enfrentar sua pior derrota desde 2006, quando Morales assumiu. Após governar até 2019, ele garantiu a vitória de Arce em 2020, mas foi barrado pela Justiça de concorrer novamente e agora defende o voto nulo. Candidatos governistas como Eduardo Del Castillo e Andrónico Rodríguez, ambos de 36 anos, estão distantes nas intenções de voto. A rivalidade entre Morales e Arce rachou o MAS, agravou a crise com violência e bloqueios, e minou a popularidade da esquerda.
“A crise nos atingiu por completo. Queremos mudar esse cenário”, afirmou Alejandra Ticona, estudante de Direito de 24 anos, de La Paz, que, apesar de reconhecer benefícios passados da esquerda para agricultores como sua família, apoia a direita para resolver os problemas econômicos. Doria Medina e Quiroga propõem um plano de choque: corte de gastos públicos, fechamento de empresas estatais deficitárias e redução de subsídios. “Vamos iniciar uma nova fase, priorizando a estabilidade econômica e uma economia capitalista”, declarou Doria Medina à AFP. Quiroga, mais ousado, fala em uma “mudança sísmica”.
Cerca de oito milhões de bolivianos, com voto obrigatório, estão aptos a votar. Após 20 anos de MAS, “o governo não pode mais culpar terceiros pela crise”, avalia o internacionalista Pablo Calderón, da Northeastern University de Londres, apontando o desgaste natural. Sob Morales, a Bolívia triplicou a produção, reduziu a pobreza de 60% para 37% e incluiu indígenas na distribuição de poder e riqueza. Porém, a exceção boliviana na América do Sul pode acabar se a direita vencer.
Calderón alerta contra mudanças radicais que afetem programas sociais que tiraram muitos da pobreza. Já Glaeldys González, do Crisis Group, destaca que os bolivianos estão abertos a liberalização econômica e redução do Estado, dado que “esta geração enfrenta a pior crise econômica de sua história”.
