Autorização para Doação de Órgãos Passa a Ser Decisão Exclusiva do Doador
3 min readReforma do Código Civil Altera Doação de Órgãos no Brasil.
O projeto de reforma do Código Civil, atualmente aguardando votação no Senado, marca uma mudança histórica sobre a doação de órgãos no Brasil. Pela proposta, apresentada no final de 2024, toda pessoa que registrar formalmente sua intenção de ser doadora terá essa vontade respeitada, sem que seja necessária confirmação por parte da família. Essa alteração legal vem em resposta a um problema recorrente: mesmo em casos nos quais o cidadão expressou o desejo de doar órgãos, a autorização final ainda dependia da decisão dos familiares, frequentemente resultando em negativas. Dados do Ministério da Saúde revelam que, em 2023, de 8.180 entrevistas realizadas com parentes para esse tipo de autorização, 3.465 recusaram, o equivalente a 42,4%. A reforma busca, assim, ampliar a efetividade do sistema de transplantes e garantir que a autonomia do indivíduo seja plenamente respeitada quando documentada em vida, removendo empecilhos burocráticos que atrasavam e inviabilizavam procedimentos essenciais em todo o país.
Historicamente, a legislação brasileira sempre colocou a decisão final sobre a doação de órgãos nas mãos da família, mesmo que o falecido tenha manifestado em vida o desejo de contribuir com transplantes. Esse modelo era respaldado pela Lei de Transplantes e pelo Código Civil, que condicionavam a retirada dos órgãos à autorização de cônjuges ou parentes até segundo grau. O procedimento exigia não apenas um consenso familiar, mas também formalidades como a assinatura de documentos e a presença de testemunhas, tornando o processo sensível não só pelas implicações médicas, mas também pelo impacto emocional no momento do luto. Especialistas em saúde e direitos humanos vinham defendendo mudanças, argumentando que o respeito à autonomia individual deveria prevalecer, principalmente diante do déficit nacional de órgãos disponíveis para transplante. A proposta já conta com apoio de entidades médicas e jurídicas que consideram a medida um avanço civilizatório, alinhando o Brasil a práticas internacionais.
Com a nova redação do Código Civil, além de eliminar a exigência de autorização familiar para doação de órgãos por pessoas que se declararam doadoras, o texto também aperfeiçoa dispositivos sobre a recusa de tratamento médico, permitindo ao cidadão deixar orientações antecipadas e escolher representantes para decisões futuras de saúde. Os impactos esperados vão desde a redução do tempo de espera por transplantes até o aumento do número de procedimentos bem-sucedidos, uma vez que grande parte das recusas partia de familiares inseguros ou emocionalmente abalados. Juristas apontam que a mudança proporciona mais segurança jurídica para as equipes médicas, evitando impasses e possíveis questionamentos legais que atualmente dificultam a execução dos protocolos. Por outro lado, setores conservadores levantam preocupações quanto à redação do projeto, temendo confusões entre práticas médicas válidas e procedimentos eticamente controversos, como a eutanásia, embora especialistas reiterem que os marcos da legislação continuam rigorosos e bem delimitados.
Perspectivas para o Futuro da Doação de Órgãos no País
A aprovação definitiva do novo Código Civil, com suas mudanças sobre a doação de órgãos, representa uma nova era para a saúde pública e para os direitos individuais no Brasil. O reconhecimento da autonomia plena do doador traz perspectivas otimistas não só para pacientes que aguardam transplantes, mas também para o fortalecimento de políticas de saúde baseadas na liberdade e autodeterminação. A expectativa é de que a reforma estimule mais pessoas a se declararem doadoras, reduzindo a escassez crônica de órgãos e aumentando as chances de sobrevivência de milhares de brasileiros que dependem de transplantes. O tema segue em debate no Senado, mas já consolida um amplo consenso quanto à importância de alinhar normas legais às necessidades reais da população. Caso aprovada, a nova legislação deverá servir de referência para outros países da América Latina, consolidando o Brasil como protagonista em políticas modernas de doação e transplante de órgãos.
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